Sunday, April 29, 2007

O que aconteceria se....


A mãe da minha mãe morreu ontem. Tinha 91 anos, foi de velhice mesmo. Morte tranqüila, sem sofrimentos, por isso um clima não pesado no velório, claro teve uns momentos tristes, lágrimas e tudo o mais, mas tudo foi muito sereno. A começar pelo jeito que ela se foi. Minha vó mesma falava que estava cansada de viver, que já tinha vivido o suficiente, e que queria morrer este ano ainda, de preferência. Como tinha muito tempo livre, entre outras coisas, já tinha decido qual roupa queria usar no dia de seu velório. Descobrimos, ontem, enquanto arrumávamos as suas coisas (ela morreu no quarto dela), uma pastinha com tudo detalhadinho, nos mínimos detalhes: o que colocar junto ao caixão etc. etc., coisas que realmente não pensamos muito quando somos jovens (entre essas coisas, uma foto e uma poesia de meu jovem primo morto durante um assalto há uns anos).

Ela chegou ao Brasil em 1933. Veio do Japão com uma irmã, dois irmãos, o pai, e meu avô. Eu realmente fico pensando e me admirando, cada vez mais intrigado, sobre as razões que os fizeram vir para cá. Era entre-guerras, vale lembrar. O Japão não era nenhuma potência econômica ainda, pelo contrário. O trajeto, que hoje demora umas singelas 24 horas para ser feito de avião, naquela época levava seis meses de navio. As informações não circulavam naquela época, claro, então para um japonês tentar visualizar em sua mente o que era o Brasil e o que era um brasileiro devia ser mais difícil do que, sei lá, tentar se imaginar dentro de uma equação matemática e ter que tomar o café da manhã com logarítimos. Você pode nunca ter ido para Botsuana, mas se for no Google Images terá uma vaga idéia de como é por ali.

Ah, sobre a coisa do navio. Volta e meio leio relatos sobre a diferença entre os navios de imigrantes japoneses e imigrantes de outros países. Dizem que os setores japoneses eram os únicos que eram mais organizados, e que eles eram os únicos que tentavam se manter aprumados. Afinal, imagina o que é ficar morando durante seis meses num navio, com doenças e vírus e calor e suor correndo solto. Não deve ser fácil, e deve chegar uma hora que todos viram meio que bichos mesmo, sem culpas.

E em Tóquio, uma das coisas que mais me impressionaram foi a obsessão deles pela limpeza e coisas do tipo. Vários deles usam máscaras. Quando eles ficam resfriados ou gripados, eles usam máscaras. Eles têm tanta preocupação com o coletivo que usam a máscara para não contaminar as outras pessoas. Fumar na rua é proibido. Tem áreas nas esquinas reservadas para fumar. Durante minha estadia lá, não vi uma sujeira, uma bituca de cigarro jogada no chão. Do navio pra avião, certas coisas não mudaram.

O pai do meu pai também morreu este ano. Foi no mês passado, e ele tinha 95 anos. Morava no interior de São Paulo, até uns 3 anos atrás ele comia aqueles torresminhos gigantes, sabe?. Comia sem constrangimentos, e sem nunca ter ouvido falar que aquilo fazia mal para a saúde, e sem se preocupar que ele não tinha mais dentes. Chupava como se fosse uma bala, e era um barato ver ele se deliciando com seus torresmos. Também morreu sereno, calmo, sem sofrer nenhum dia. Um belo dia estava tomando banho (ele conseguia tomar banho sozinho) e puf, passou mal, caiu no chão e pronto.

Fomos lá em Lins assim que conseguimos. Foi estranho chegar lá e não ver o meu avô todo encolhidinho no canto da sala. Ele tinha uma poltrona predileta, que era só dele, e ficava lá quase o dia inteiro, atolado no sofá, todo torto. Nunca tinha ouvido falar que fazia mal para a coluna. E senti falta dele me perguntando quando eu ia me casar.

Minha avó veio lá de Nigata, Japão. Meu avô, não faço idéia. Dizem que nasceu no navio, ou que veio ainda bebê de colo, nunca me confirmaram direito essa história. Ela até o fim da vida era uma japonesa de raiz, teimosa e blasé que nunca aprendeu a falar português. E eu nunca aprendi a falar japonês; ou seja, nunca tivemos um diálogo de verdade. Mas, entre as lembranças legais de infância era que ela adorava as novelas das oito da Globo, nos anos 80. Ela assistia, não entendia nada, e assim que terminava a novela, ligava aqui em casa e minha mãe explicava tudo que tinha acontecido naquele capítulo.

Meu avô, ao contrário, tinha pouco de japonês. Até pelo estilão dele. Fazia um look meio tipo Cartola, sabe? Chapéu, camisa social branca, sempre impecável, um típico brasileiro do interiorzão. Era bem escuro também, talvez porque lá é quente e faz um sol dos infernos.
E ele falava português com todo o sotaque típico do interior.

Com ele tive conversas ótimas. Me falou, entre delírios sinceros, que quando era jovem, teve mais de 100 namoradas. Que sabia tocar violão, que tinha jeito pra coisa. Mas, que tinha uma família para sustentar e que tinha que trabalhar na roça. No fim da vida, tava desencanado de tudo. Eu vibrava quando ele escarrava no chão. É, ele cuspia no chão, dentro de casa. Tava nem aí, mó punk. Na velhice, os freios sociais desaparecem.
Saudades também do meu pai, que se foi em 1994.

Vidas lindas, admiro todos.

E lá na breve passagem pelo Japão, claro que não deu pra não ficar pensando em montes de coisas do tipo “o que aconteceria se...”. E se o governo japonês não tivesse incentivado que seu povo viesse ao Brasil, país onde a propaganda dizia que o ouro nascia em árvores? E se eles realmente tivessem ficado ricos, como a propaganda do governo prometia, e eles tivessem voltado ao Japão em poucos anos?.

Daí, naquele monte de japoneses, eu me misturo na multidão, mas sou um farsante. Não sou um deles, apesar de parecer. E daí lembro que desde que nasci, sou o “japa” aqui no Brasil, e por mais que a mistureba racial no Brasil seja geral, nunca sou tratado como um brasileiro. E de onde eu sou, enfim? E, lá, claro, eu sou um brasileiro tosco que tem antepassados que supostamente pularam fora do barco afundando e foram tentar a sorte em outro país.

E, claro, fico imaginando se meus avós não tivessem tido a maluca idéia de ter vindo ao Brasil, talvez eu estivesse lá, em meio aos trens-balas e aos enormes anúncios de néon e às maravilhas do Primeiro Mundo e dos estudantes que se matam porque foram mal na escola. Me dei bem? Me dei mal? Não sei de nada, muito menos a roupa que vou usar no meu último dia.




Sunday, April 22, 2007

Por isso eu ouço demais


Estava ali e agora e era assim que tinha que ser. Mesma terra, mesmo fuso horário, agora não dava mais pra fugir. O problema foi ter visto coisas demais, conhecido cidades demais, encontrado pessoas demais, muita informação a deixou apenas com um estoque inesgotável de imagens pela cabeça, impossíveis de serem varridas. E o que fazer, agora, com aqueles sons que também prometiam nunca mais lhe abandonar?

Durante alguns poucos dias, Maria Antonieta viveu 12 horas à frente, e não soube o que fazer com tanta sabedoria acumulada que não lhe servia pra nada. Estava à frente, era um fato inegável, mas não conseguiu tirar vantagem de viver no futuro. Talvez se descobrisse o resultado da Mega-Sena acumulada, e retornasse as tais 12 horas, até haveria uma chance de viver no macio. Mas 12 horas nunca serão suficientes, e é o máximo que Maria Antonieta atordoada conseguirá viver. Um poder que não lhe dava nenhum poder. Mas, orgulhosa, gostava de ostentar um pescoço à prova das guilhotinas de lâminas mais afiadas.

O corpo doía, o sono era latente. Não, não era assim. Estava agitada, não saberia mais o que é dormir. Seus 25 metros quadrados de vida seriam a confirmação diária e matinal: sim, você está de volta, e aqui todos enxergam a Mulher-Invisível, para cada Batgirl, disque DD-Drim.

Não era de todo mau a dimensão reduzida do apartamento, afinal nunca gostou de ter muito trabalho. Mas essa coisa de ter cozinha, banheiro, quarto e escritório tudo num mesmo ambiente começava a lhe incomodar. Ervas finas no meu macarrão não combinam com esse frio acento de vaso sanitário que comprei com tanto esforço. Paguei uma fortuna, lembrava com um sorriso. E os dedos doíam de tanto apertar o controle remoto.

Agora a vida seria assim, de vagas lembranças e casas apertadas.

Mas quando o aperto era demais, havia sempre a varanda, seu verdadeiro lar, e havia sempre espaço para abrir os braços e abraçar aquela planta com nome de mulher. Nunca mais passarei fome, prometeu, ....Scarlett O’Hara que era, e nunca mais me sentirei sozinha, chorou emocionada, com os punhos cerrados.

Dobrava os joelhos, ia sentando aos pouquinhos, com as costas encostadas naquela parede de mil musgos. Era o espaço ideal para relembrar aqueles sons. Que ficaram grudados à cera mais consistente dos labirintos dos canais auriculares. O acupunturista não achou nenhum problema. Moça, está tudo bem com você. As agulhas sorriem quando lhe penetram, apenas aprenda a circular. Se os sons invadem sua vida, faça com que se sintam em casa, ora. Mas, doutor, eu sou toda ouvidos. O problema é que não entendo nada do que eles falam. Sou monoglota. Eu não entendo o que eles falam. Mas o barulhinho é bom.

E não é sempre assim?
Não?
Sim.

Saturday, April 21, 2007

As coisas da vida



Sim, não é todo dia que a vida é assim.
Então, aproveite.
Meu corpo dói, não conseguirei mais dormir.
Eu tenho noção, e você não se importa com isso, graças a Deus.
A vida é fácil, você sabe.
Hoje não quero saber de mais nada.

Você me salvou hoje à noite, e é isso que importa. Podemos dançar a noite inteira, e você não irá se importar com as minhas caretas. Eu também não te julgarei por nada, só por hoje à noite.
E é por isso que nunca te pedirei nada em troca. E é por isso que te sorrio sem pensar em razões para sorrir. Quero ver você amar, quero amar, quero pensar em quem amei, com todo amor do mundo. Enquanto eu danço, um mundo gira. Eu me lembro de cada história. Cada uma delas, nos mínimos detalhes. E sorrio.

Não fico mais triste, hoje não há por que chorar. E você pensa no casamento que não aconteceu, e eu falo nos casamentos que eu assisti. E eu falo que a gente não precisa ter pressa, e você, tão subitamente pessimista, desaba. Eu caso, tu casas, ele casa. Nós casamos, vós casais. Eu quis escolher, eu não quis você. Mas teve o dia em que você não me quis, então não há por que chorar enquanto nós não casamos. Sim, não é todo dia que a vida é assim. Vamos apenas aproveitar. Tudo é muito simples, você sabe disso, meu amor. Vamos aproveitar cada minuto. Não é todo dia que a vida é simples assim. Quero que você assista aos meus amores. Semana que vem, vamos ler o livro da vida.

Sunday, April 15, 2007

Toquio


Ainda nao deu tempo de assimilar tudo, e sei que nem vai dar. O tempo eh curto. Estou em Toquio ha dois dias, como jornalista da Folha, para assistir ao Homem-Aranha 3, a convite da Sony.

A primeira conclusao eh: Sofia Coppola pegou leve em Encontros e Desencontros. Claro, eh tudo aquilo que esta la no filme, mas a confusao parece ser ainda maior.

Em horarios mais movimentados, deve ser horrivel para quem tem fobia social. Tem muita gente, parece uma grande 25 de Marco em epoca de Natal.

Quem nao fala ou entende japones, tem que rebolar. Sou neto de japoneses, mas nao falo o idioma. So aprendi a falar Sumimassen, nihongo shaberemassen, que eh, Desculpa, eu nao falo japones. Ja perdi de conta o numero de vezes que falei essa frase. E o engracado eh que muitas vezes a pessoa continua falando comigo em japones.

Essa historia de que os japoneses mais jovens falam ingles eh lenda.

Pra comer, tambem eh uma aventura. Ainda nao achei restaurante com menu em ingles. Entao, o negocio eh apontar pra alguma foto ou pra comida do sujeito ao lado para mostrar o que vc quer comer.

Eu tenho me divertido, me fingindo de japones no meio dos japoneses. Comi algumas vezes em uns lugares que servem comida no balcao. Tem uma maquininha tipo daquelas de cafe, com foto, gracas a Deus. Vc poe a moedinha la, sai um tiquete, e o unico trabalho que vc tem eh entregar o bilhete pro atendente. Que nao te pergunta nada. Antes de fazer qualquer coisa, fico um tempao olhando pra imitar.

Tambem resolvi comer obento, que eh como se fosse uma marmita. Vc vai na loja, compra, e tem umas pracas em que as pessoas ficam comendo ao ar livre. Tambem me fingi de japones e comi. O unico problema foi saber onde jogar o lixo. Sao varios lixos, e vc nao pode simplesmente sair jogando. Tem um pra objetos reciclaveis, outros pros nao reciclaveis, um pra garrafas de plastico etc....Fiquei meia hora olhando, mas acho que devo ter jogado no lugar errado.

Como estou a trabalho, nao deu pra passear muito ainda.

Mas ja dei uma volta rapida por Shibuya, Roppongi e Harajuku. Nao tem equivalente em Sao Paulo, mas se vc forcar a barra, da pra dizer que tem a ver com a rua Augusta e a Vila Madalena.

Bem, quando voltar pra SP, conto mais.

Sunday, April 08, 2007

O cineminha vai ao cinemão




O armário está aberto há horas, todas as roupas sumiram. Você pode achar uma bobeira, se estivesse no prédio em frente, e visse pela janela uma mulher só de calcinha a entrar e sair do banheiro. Nenhuma roupa servirá hoje à noite. É tudo uma grande bobagem, você riria e me humilharia. É apenas um filme, você diria.

É apenas um filme. Mas ando com medo de duas horas intensas.

Não é apenas um filme, eu sei retrucar, ainda não irritada. Em duas horas posso ver impérios sendo construídos e destruídos. Posso ver aquele momento em que a vida do moço bonito começa a descer ladeira abaixo. E terei que abandoná-lo em seguida. Como me comunicar com quem já não está entre nós? Não estou pronta para ver o filme da minha vida. Não hoje à noite.

Não consigo viver à base de pedaços. Quero saber o antes, o que veio antes do antes, e gosto de previsões. Não conseguirei prestar atenção no filme. Às vezes acho que não há ônibus nesta cidade.

Qualquer coisa vai servir. Há tempos não entro numa sala escura. Não sei o que fazer. Conversar? Pegar na sua mão? Gosto de ficar em casa. Há mais espaço no sofá.

Sei que vai ser ruim. Não tem nenhum filme bom em cartaz na cidade. Não tem histórias boas nesta cidade. Não gosto do escuro. E não consigo dormir. Se eu não durmo, eu não sonho.
Por que ele demora tanto?

Por que eu não consigo lembrar seu endereço?

Preciso parar. Eu sei que as pessoas são gentis umas com as outras porque a gente imita. A gente só imita, mas não sabe por quê. Mas eu insisto em acreditar. Preciso parar porque há tempos não compro roupas novas.

Eu não consigo lembrar da última vez. Quer dizer, de relance, lembro que era bom. Que a gente sorria, mas nada mais. Acrescento uma música de fundo, reescrevo diálogos. Reenquadro as cenas, me vejo falando, discutindo, tomando-a nos braços. Me vejo na cama. Mas sei que não foi assim. E de onde tirei essas cenas? É o melhor filme que eu já vi na vida.

Mas eu não quero parar. Como dia após dia, como despertador tocando após despertador tocando, como cara amassada no espelho após cara amassada no espelho. Eu vou.

Eu sou daqueles que vêem o mesmo filme várias vezes. A primeira é só para falar que vi. Na segunda, finjo ansiedade, mas sei o que vai acontecer. Acho que só assim para me sentir um deus. Mas nunca tive vocação para isso. Acho que prefiro nada saber. Na terceira, brinco de memória. Sou adivinho. Sei o que cada um vai dizer ao outro. Sei que agora a moça não vai beijar o moço, mas que daqui a 40 minutos, eles estarão suando e balançando a cama. Não há fim.

Quero acreditar em você. E ver de novo histórias previsíveis.

Tuesday, October 31, 2006

Gloria


Entrevistei Patti Smith no último sábado, dia 28 de outubro, no Rio, para a Folha (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65593.shtml). Como no jornal não cabe tudo, vou colocar a entrevista inteira aqui. Vou tirando a fita aos poucos, e postando, para não perder o embalo. Mais tarde, também, as impressões. Ver Patti, comprida, magra, longos cabelos brancos, de chapéu, gravata, blazer, tipo Diane Keaton em Annie Hall, dobrar o corredor, e vir andando em minha direção, e sorrir para mim e estender a mão e perguntar como eu estava, são daquelas experiências que....precisam de mais espaço para se falar....Bem, aqui vai, aos poucos, a entrevista com a Patti Smith:

(foto do Alexandre Schneider, do UOL)

Você poderia falar sobre as suas primeiras impressões do Brasil, e não apenas coisas relacionadas às pessoas, à praia etc?

Bem, estou aqui só há um dia e meio. Minhas primeiras impressões, é claro, são saindo de carro do aeroporto, e achei tudo muito diverso e interessante em termos de arquitetura. As partes que parecem ser mais pobres continuam interessantes, e têm uma estética específica que achei interessante e atrativa. As pessoas têm sido muito fervorosas e.... bem, estou aqui há um tempo muito curto, mas todos têm sido solícitos, respeitosos e brincalhões. As pessoas parecem ter um bom senso de humor, o que é importante, e gosto da comida, porque gosto de peixe frito e muita salada (é como eu gosto de comer), então é fácil para mim comer, e sentar na praia e comer bacalhau, e conversar com as pessoas, rir com as crianças e escutar as pessoas falando sobre as eleições, o que achei interessante porque parece que não importa para onde você vá, todos estão encarando os mesmos problemas, que é a corrupção, e ter um acordo com a corrupção, ter um acordo com a mídia também é ser corrupto. Então, temos muitos dos mesmos problemas, e a diferença entre os ricos e os pobres é uma grande disparidade. A América tem muitos dos mesmos problemas. Eu não diria que estou comparando países, porque não sei muito sobre seu país, mas nós sofremos das mesmas coisas, a destruição do nosso meio-ambiente, os ricos ficando mais ricos, o governo sendo corrupto, e acho que em qualquer lugar que eu vou, as pessoas parecem estar sofrendo esses mesmos desafios. Outra coisa que observei é a beleza da região rural, Vi só um pouco dela e me faz querer voltar. Quando eu voltar, e passar mais tempo no Brasil, então poderei te dar uma resposta mais inteligente.

Você tem algum conselho para dar aos brasileiros? Amanhã vamos escolher nosso novo presidente...

Apenas diria às pessoas para seguirem seu coração e votar. É algo muito difícil, porque no meu país, nós temos nos mostrado muito pouco nas eleições. Apenas metade das pessoas votam, o que é deplorável, e as melhores pessoas nunca vencem. Os melhores partidos independentes têm passado por um período muito difícil para se tornar mais fortes porque somos dominados por um sistema de dois partidos. Então, uma pessoa realmente honesta e inteligente como Ralph Nader não tem conseguido se tornar presidente. E se ele fosse presidente, o mundo inteiro seria mais feliz, acredite em mim. Então, se eu fosse dar algum conselho, eu diria: “Não faça como a América faz, não fique sentado na sua casa. Saia e vote, porque um voto realmente é importante. Cada único voto é importante. Se você tem duas pessoas concorrendo, e uma delas tem mais chances de servir melhor ao povo, vote nele. Porque alguém vai governar. E os governos, em todos os lugares ao redor do mundo, tem se esquecido de seu dever. Os governos estão lá, na verdade, para servir ao povo. Não é o povo que serve ao governo. O governo serve ao povo, mas em algum momento no decorrer da história, em todo o planeta, o governo se esqueceu disso. É como nas igrejas, ou no Vaticano, ou qualquer coisa. O porquê de eles estarem lá é para servirem ao povo. Eles não estão lá para dominar o povo. Eles estão lá para servir às pessoas. Seja para ajudá-las, ou para ajudá-las a se organizar, para oferece-las um lugar para culto, um lugar para exercitar suas visões políticas. O governo e a igreja servem ao povo.

(continua...)

Friday, October 20, 2006

Vou tocar


Um final de semana, duas coisas

Gheirart manda avisar:


Preparados para a 6ª edição do famoso 10:15 Saturday Night?

G-há e Serge tocando novidades e popices descompromissadas
+ Bruno Saito (Ilustrada) e Plínio César (Espaço Retrô) fazendo coro à nossa temática.

Intervenções com o Dietrouxas Projekt (projeto com releituras de Marlene Dietrich) + Brazilian Cure (minha banda cover do Cure da década de 90). Tudo acústico e rápido, claro!

As imagens ficam por conta de Alexandre Bispo.

Como a festa já virou balada, não se sinta intimidado. Você pode reservar uma mesa, passar antes de ir para algum lugar, reencontrar os amigos, levar sua mãe, beber um drink no balcão, dançar Suede na pistinha improvisada etc. Enfim, ser o q você realmente é! Rs

Augusta, 2052 - em frente ao cinesec • tel.: 3062-4429 • R$ 3
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=7255796


e Rodrigo também manda avisar:


As cantoras Lulina e Karine Alexandrino e a banda Seychelles dividem o palco do Coppola neste domingo (22). O show faz parte do Projeto 2em1, organizado pela casa.A neo-tropicalista Karine mostra hits do segundo disco, o CD Querem Acabar Comigo, Roberto.

A recifense Lulina se prepara para lançar o primeiro disco, portanto antecipa algumas melodias deste material.O Seychelles remonta o rock feito na Inglaterra nos 70, misturado à vanguarda paulistana do começo dos anos 80 e o psicodelismo de Mutantes e Secos & Molhados. Apesar das referências do passado, a banda busca "reinventar" o rock, misturando música eletrônica e jazz. (GUIA MAIS - SHOWLIVRE)

Local: Coppola (R Girassol, 323, Vila Madalena, São Paulo-SP)Hor: 19h. Os shows começam 20h!Ing: 25,00DJs: MARCELO COSTA e BRUNO SAITO

MANDE NOMES PRA LISTA!!! show@2emum.com.br e pague R$ 12,50 por 3 shows!! heheheEsta mensagem foi enviada por Rodrigo De Araujo.
Para ver o perfil de Rodrigo, clique em:http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=4233995506153258768

Thursday, October 19, 2006

O kitsch e o noir



Não é muito difícil entender por que "Dália Negra" divide opiniões. Para começar, não é um entretenimento leve, daqueles para se assistir despreocupadamente entre uma pipoca e outra ao lado da namorada. Afinal, acompanhar as imagens de uma mulher que é cortada ao meio e, quase pior, a narração de um legista que conta como certos órgãos internos da vítima foram removidos, não é algo muito agradável para quem não é fã de programas policiais do mundo cão da TV _além de a digestão da pipoca pedir temas mais amenos.

Mais do que isso, "Dália Negra" incomoda porque coloca a cabeça para pensar (e não se trata de filme de "arte", "francês", "cabeça" ou "da Mostra"). Quem procura história (e quem acha que um filme bom necessita de historinhas) vai logo reclamar que o longa de Brian de Palma é enrolado demais, tem muitos personagens, não dá para entender direito quem faz o quê, quem é o culpado do quê.

O que não deixa de ser verdade. Certos personagens coadjuvantes vão aparecendo do nada, somem fisicamente em determinado momento e somem, principalmente, na memória do espectador, quando uma profusão de nomes volta e meia é pronunciada. Estamos todo o tempo às voltas com pistas falsas. Pode até parecer que é até mais um filminho qualquer sobre a investigação de um assassinato.

"Dália Negra" requer ainda uma certa dose de humor _e, para entender qualquer tipo de humor, é necessário, novamente, pensar. Ainda mais porque o humor de "Dália", filme extremamente sombrio, é sutil, quase imperceptível, ambíguo, enfim, são várias piadas internas, que não buscam a gargalhada.

Quem não enxerga o humor de "Dália Negra" provavelmente acha que clichês são um pecado mortal, e que usá-los aos montes em um filme o torna ruim. Filmes ótimos podem ser repletos de clichês, da mesma forma que um amontoado de clichês não tornam necessariamente um filme bom. Não se trata da quantidade, mas sim da maneira com que são usados.

Assim, De Palma une o clichê e o humor, numa espécie de sátira/homenagem a Hollywood. E esta indústria, seja a da era clássica, seja a dos dias atuais, é indissociável da idéia de clichê _um molde para reproduções infinitas, feitas ao gosto do espectador, para não correr riscos de flop nas bilheterias.

Costuma-se dizer que "Dália Negra" é um filme frio. Sim, ele é deliciosamente frio e calculista, como as piores "femme fatales". Ou então costuma-se dizer que acontecem coisas demais na parte final, que há um excesso de revelações, como se De Palma tivesse desleixado na montagem. Novamente, há, sim, uma certa ironia nisso tudo, e não há como não pensar em certas situações e personagens maneiristas que David Lynch insere em seus filmes _a série "Twin Peaks" é repleta delas_ ou nas conclusões dos antigos desenhos do Scooby-Doo, quando os mocinhos retiravam a máscara do vilão.

Sátira que fica evidente quando um dos personagem faz uma observação em relação à arte moderna, reprovando-a, já que o quadro em questão não representa a beleza clássica, mas sim as deformações da alma. O cinema moderno de De Palma relê o filme noir e seu imaginário, numa estrutura que de certa maneira caminha para o kitsch, e encontra um saudável ponto de conexão com o cinema psicológico de David Lynch.

Tudo em "Dália Negra" tem a ver com a irrealidade das ações, das falas, das verdades e mentiras da imagem. A cena inicial, de conflitos nas ruas, por exemplo, não faz questão nenhuma de fingir-se realista. São claramente atores em ação num estúdio. Veremos a Dália viva apenas na projeção de um filme vagabundo usado nas investigações de seu assassinato _ela não é um ser concreto.

Ou então o recurso da voz "off", necessária ao noir _Pensamentos e ações de Bucky narram o que veremos à frente, ou o que deveríamos ver_ e as "femme fatales", devidamente envoltas em nuvens de cigarros, que surgem conforme manda o clichê (uma delas é bissexual, a outra foi marcada em ferro). São mulheres malvadas, donas de falas geniais ("Me esforcei muito para ser uma vadia", ou algo do tipo, diz a personagem de Hillary Swank em determinada altura, "mas ela [a Dália Negra] tinha um talento natural para isso").

Não há verdade nas imagens, ou melhor, não há uma única verdade, e quem já reclamava que "Femme Fatale", seu filme anterior, era ruim porque tudo no final era "só" um sonho, vai reclamar novamente, já que De Palma retomou ao seu tema básico.

"Dália Negra" volta assim ao universo de tintas B de "Vestida para Matar" (e suas soluções psicológicas e a referência a "Psicose"), "Dublê de Corpo" (a imersão no universo pornô, a referência a "Janela Indiscreta" e a loira puta e fatal) e "Um Tiro na Noite" (novamente a puta, o imaginário invadindo o real e a referência a "Depois Daquele Beijo"). Assim como personagens desses longas anteriores, Dwight irá se sentir terrivelmente atraído pelo perigo e pelo mórbido, já que irá transar com a "femme fatale" Swank, espécie de duplo da moça assassinada e retalhada. A diferença é que, agora, trata-se de um cineasta com pleno domínio dos seus recursos. Com este filme, fica ao lado de cineastas que estão no auge, como Lynch e Almodóvar.
E, como eles, mantém um pé nada reprimido no "mau gosto" de seu passado, e encarna outro estereótipo, o do velho safado que perde de vez seus pudores.

Originalmente escrito para http://ilustradanocinema.folha.blog.uol.com.br/

Wednesday, October 04, 2006

Ano passado em

Quando você me procurou, eu já não mais existia. Não consegui te escrever, não consegui te procurar, a velha história da vó contada ao pé do ouvido....mas ando tão ocupado, você sabe, essa vida corrida que não dá tempo nem para respirar. Mas quando você me procura, eu me lembro de como fomos, de coisas que a gente falava à noite, de viagens que a gente faria. Nossa história não existiu, ela vai existir ainda. As historinhas mais secretas de criança, daquelas que a gente só lembra quando a gente conta, os planos futuros e os empregos que nunca tivemos mas sempre planejamos, e a virada na vida que sempre surgia na virada do ano. E cada pedacinho de lembrança, e cada frase que ainda fica por aqui, e cada lembrança de rosto seu, e cada expressão minha que eu fiz para você e nunca vi, mas que me recordo tão bem. Será que vamos conseguir apertar a mão bem forte para ficarmos juntos, e não irmos embora, e não nos perdermos e não sermos arrastados ? E o que nos arrasta? E se esse tempo todo longe for apenas um lapso, e de fato nem um dia tiver se passado ? Estou do seu lado, e se as palavras omissas não chegam até você, tudo é uma questão de tempo. Aquele que você procura sempre retorna.

Sunday, June 04, 2006

Roupas para a festa

Quando se sentia só, vestia sua melhor roupa de sair. E esperava. Quando se sentia extremamente só, vestia sua melhor roupa de sair e caprichava na maquiagem. E nada passava. Quando a solidão deixava de ser uma sensação incômoda para se tornar sua verdadeira e única roupa, um espelho de corpo inteiro não bastava. Poderia até ir ao cabeleireiro, se naquelas horas eles existissem, cortar os cabelos bem curtos quando as longas madeixas se tornassem grandes empecilhos à sua vida, mas as novas roupas nunca lhe cairiam bem. Tinha apenas a sensação. E passaria longos minutos olhando pela janela, à procura de alguém que ela nem reconheceria mais se um dia encontrasse. O ato era reflexo, automático, após aqueles dias em que procurava por ele e não o encontrava em nenhuma hora do dia, da noite, em nenhuma rua que seu campo de visão lhe permitisse enxergar. Mas ela nunca estava sozinha de fato, o quarto até que era grande para ela, e as caixas espalhadas pelo chão eram profundas. E lá de dentro encontrava cartas e relia as cartas nunca enviadas, e as misturava com as cartas devolvidas, no meio das cartas que ele lhe escrevera, e as letras se fundiam, e as datas se apagavam, e as tintas de diferentes canetas, de diferentes cores, de diferentes tempos (tempos mais felizes?), se cruzavam e se borravam, ilegíveis a cada novo surto de depressão compartilhada que ela encenava na quitinete, e as cartas inventadas iam descrevendo fatos que nunca aconteceram de fato, coisas que poderiam ter sido, e nunca foram porque nunca tiveram espaço para realmente acontecer, e você pode dizer que foi ela quem nunca quis de fato que acontecessem, e você pode talvez acreditar que foi ele quem nunca a entendeu de fato, e ela pode achar que eles nunca tiveram uma conversa de verdade, mas o que acontece é que naqueles momentos em que ela se permitia um surto de solidão e deixar de lado as criancinhas famintas no sinal pedindo dez centavos e os homens caídos na rua pedindo pelamordedeus uma ajudinha, ela colocava sua melhor roupa de sair e caprichava na maquiagem e até tentava fazer um rápido corte improvisado no cabelo se retorcendo na frente do espelho para conseguir acertar a tesoura. Reunia todas as promessas e acusações de todas as cartas entulhadas naquela caixa profunda, daquele quarto nem tão grande assim e imaginava que estava indo para uma festa. Não havia telefone para tocar naquele quarto, e há muito tempo ela não saía, e sua caixa postal era um mistério, mas tem vezes em que as roupas de sair pedem sua presença, e as roupas de sair não podem ficar muito tempo trancadas no armário, então ela se prepara para a festa de sua vida, mesmo que não haja festa nenhuma lá do outro lado da porta, naquelas ruas em que ele nunca mais estará, porque afinal a vontade de celebrar é grande, e os motivos são detalhes pequenos de nós dois, isso no velhos tempos, e agora não sou mais dois, eu sou mais um, como nem me lembrava mais, porque a vontade de me tornar um zero é sempre uma tentação a atormentar.

Tuesday, May 30, 2006

O jardim das geladeiras




Costumávamos nos desencontrar constantemente. Era só eu colocar o pé numa festa para não vê-la. Ela saiu agorinha pouco, me diziam, agorinha mesmo, e ela tava te procurando. Outras vezes, quando finalmente nos esbarrávamos pelas linhas telefônicas (e devo dizer que a ligação, abafada e cheia de chiados, volta e meia caía), combinávamos um longo café. Para finalmente colocar a conversa em dia. Ou melhor, para finalmente iniciar uma conversa. Mas apenas combinávamos e fazíamos planos. Não tomava café há anos. Recomendações do meu analista.

Todos nós somos crianças ainda. E essa era a minha brincadeira. Eu não sabia quem era ela. Nunca a deixava se descrever para mim. E você, como você é? Com quem você se parece?, ela não se cansava de perguntar. Às vezes, eu dava uma descrição qualquer. Estatura mediana, óculos e meio moreno, como o moço da propaganda da revista que eu folheava. O mais vago possível. Que diferença isso faz, eu dizia. Sou quem você quiser, não é assim com os outros, moldes ambulantes? Olha só que bela maneira de conhecer alguém. Você vai lá, aborda um estranho e diz: É você? A reposta não importa. Se for sim, o café estará nos esperando. Se for um estranho mais estranho do que eu, o café estará esperando por vocês. Sua vontade de amar vem antes de mim.

Éramos um casal. Namorados? Preferia dizer que éramos dois. Dois mais dois é cinco. As coisas iam entre nós. Éramos remetentes, nunca destinatários. Ela me ensinou a contar. E sempre havia um que incomodava. Um número a mais. Um número a menos. Nunca entendi matemática. Mas lembro que havia algo ausente que sempre torturava. E o elemento a mais que desestruturava. A exceção que desbanca as regras. Ela esboçava minha imagem, e moldava a nossa história.

Testávamos a resistência dos fios de telefone, das lições da matemática. Mas o que mudou nossas vidas mesmo foi o calor dos corpos. Os corpos que envelhecem. Aquele tempo que tanto dávamos as costas. Física, química, biologia, tudo no mesmo saco. Nada de filhos, carro, comida no prato e uma casa linda para nos abrigar. Apenas outras regras. As rugas que disfarçam os amantes. Os cabelos brancos que camuflam e cegam nossos olhos. E o tempo que apagava a memória. E não sabíamos que eram regras.

Até ficarmos mudos e percebemos que não havia mais linhas, apenas ondas eletromagnéticas. Ondas de rádio, radiação. E nossa história teria agora que se propagar pelo ar, sem nenhum contorno definido. Nosso amor se perdia sem os seguros fios para nos sustentar. O tempo era outro.

A máquina de escrever travava. Não havia mais cartas nem ligações. Numa última tentativa, pensamos com muita força para ver se o pensamento viajava pelo espaço. Foi aí que nos vimos pela primeira vez.

Figura borrada no meio da multidão, ela olhava como os míopes sem óculos. Mais do que os olhos, ela forçava seu coração. Exprimia-o com força para ver se ele bateria com um pouco mais de vigor. Tantos anos vivendo separadamente juntos me davam a certeza de que era ela. E no primeiro contato, tantos desencontros forçados vieram cobrar sua dívida. Vivíamos em outro tempo.

Prometi a ela que a partir daquele dia eu leria as bulas. Tudo tem que estar na temperatura certa. A partir daquele dia eu comecei a guardar a margarina na geladeira. Tudo derrete. Eu não queria ver minha manteiga derretida. E ela aprendeu a regular a temperatura. Não ia mais mastigar blocos de gelo. Ficava resfriada.

Mas não conversamos. Apenas nos vimos, e nos falamos agora por telepatia. Sempre há algo que nos separa. Eu vivo em outro tempo. Acho que 1 segundo nos separa. Talvez ela viva 1 segundo no futuro, as mulheres são mais fortes e espertas, você nunca ouviu falar isso no jardim de infância? E você nunca reparou que no jardim da velhice as velhinhas velam seus homens? Te amarei porque sempre há algo que vai continuar fazendo falta, ela mentaliza. E eu capturo suas ondas.

Tuesday, March 28, 2006

Pássaros no quintal


Ela começou a me contar a história de um passarinho que um dia tinha caído lá no quintal de sua casa. Ele se debatia e mexia as asas, mas não conseguia levantar vôo. Imaginei que tivesse desaprendido a voar. Coloquei minhas mãos em formato de concha para pegá-lo, sem sustos, ela me dizia.

Ele se movia conforme o desespero dos pássaros, tão pequeno quanto frágil. Tentava fugir de mim, aquele bicho que não queria voar, e tentava aprender a andar, aquele pássaro que não queria o ar e queria a terra. Foi então que olhei nos olhos dele, e só então reparei que ele nunca soubera voar.

E então, o que você fez?, quis encerrar logo a conversa. Coloquei o bicho numa gaiola, só nos primeiros dias, para cuidar dos ferimentos. Ele sarou rápido. Tempo depois, tentei soltá-lo, claro, eu que choro só de ver passarinho em gaiola. Não deu certo.

E por que você não o largou de cima de um prédio, pra forçar o folgado a bater as asas? Foi quase isso. Mas ele devia ser meio suicida. Arremessei aquele passarinho, com toda a minha força, para o mais alto que consegui. Mas ele voltou caindo como uma pedra, e não teve jeito. Abri as mãos em concha para salvá-lo mais uma vez.

E mais uma vez ele me dizia com aqueles seus olhos escuros que o fato de ser um pássaro não significava nada. Ele não queria saber de voar.

Assim, ela terminava de me contar a história do passarinho no quintal de sua casa. Foi então que me vi homem-pássaro. E aquela mulher, que eu agora olhava com novos olhos, se tornava uma mulher-pássaro.

Você esteve lá no céu alguma vez, querido, ela me perguntava. Não, você não faz idéia do que é o céu. Você nunca esteve no céu. Eu vi tudo o que é possível ver no céu. Só não me lembro de nada para te contar. Então você não viveu. E nunca esteve por ali.

E por que você preferiu esse asfalto onde os carros não andam, estas ruas que nunca levam as pessoas aonde querem chegar? Se você voasse, chegaria rápido, ou melhor, ao menos chegaria em algum lugar, enfim.

O negócio dela era contar histórias. E salvar pássaros que caíam em seu quintal. Mas volta e meia ela desaparecia também.

Da minha parte, as memórias iam me escapando. Não consigo definir qual é o destino. Ponto final de ônibus, para mim, é só uma ilusão, eu tentava explicar por que não queria usar minhas asas. Pena que só eu não conseguia entender.

Subo apressado, me esfrego naqueles corpos suados, gaiola das mais vagabundas, e vou te procurando entre um ponto e outro, mulher-pássaro.

Sei que você se esconde por entre os pontos de ônibus, e sei que uma hora você sempre diz que se cansa, para então perceber que só lhe resta dar o sinal e pedir para também subir e viajar ao meu lado.Mas você sempre desce quando eu me adormeço ao seu lado.

Quando me dou conta, sozinho, desço, pássaro caído do céu, vou caminhando pelo asfalto, em uma busca eterna, entre pessoas que andam, e vou entrando em novas gaiolas, para te encontrar por trás de cortinas.

Sei que você está atrás dessa cortina. Você, enfim, vai me mostrar para que servem suas asas. E agora sou platéia-ator que espera o momento certo de bater palmas. Posso entrar? É minha vez? Fique num lugar bem alto. Para você, quero bater as palmas da forma mais animada.

Tuesday, February 14, 2006

A bêbada e o equilibrista


É só por um tempo, ela me disse, este emprego é só por um tempo, e contrariado em princípio, rapidamente me converti ao ritual diário de ficar sempre do lado de fora, esperando por sua saída. Nunca tentei entrar para ver o que ela fazia. Adoro ver você aqui, esperando por mim, falava antes de me beijar. Minutos antes, eu acordava sozinho sem ela ao meu lado, e no meio da noite tomava o café da manhã. Você não faz nada o dia inteiro mesmo, e um leve remorso me cutucava, a culpa que surgia como remédio. Placebos para uma vida que não andava. Falávamos em tons monocórdicos que se ampliavam nos silêncios que nos uniam. E ela repetia não precisa gritar, meu amor, o que você me diz eu já pensei, o que você sorri eu já devorei, o que você olha eu já te amei. Mas eu não me guio por premonições que não significam nada, cantávamos juntos, e nunca tínhamos vontade de nos soltar. Sonhos de sair pela noite e chutar as latas de lixo. Eu tentava tomar o mais longo dos banhos, camuflar sujeirinhas e colocar perfumes antes de sair de casa. Tudo para em seguida andar pelos escombros das ruas que mofavam. E ela vivia num mundo só de adultos, de muitas peles, algo barrado para mim, sujinho plastificado que nunca entendia direito coisas grandes. Lá dentro eu não consigo ver a tua pele, entre tantas outras, e só espero o telefone tocar, ela me dizia. Aqui fora as noites são longas, e as ruas nunca terminam, eu tentava completar suas frases. Mas as portas estão sempre entreabertas. Para nós dois nos espiarmos e trocarmos de peles.

Thursday, January 19, 2006

O Encontro



Quando eu te vi pela primeira vez, você caminhava por uma cidade tomada por luzes que brilhavam. Apenas alguns tons te interessavam. Às vezes no claro, às vezes no escuro, continuei cambaleando, invisível, entre diferentes tons, e preferi olhar você de longe, no início. Ainda perdido e tímido, entre os descaminhos da minha antiga vida. Tentando adivinhar aquilo que não se prevê, imaginando rostos que ainda não existiam. E o passar dos dias: conhecer amigos imaginários, amar amores. Queria para uma vida inteira, eu e você dirigindo bravamente nosso carro-submarino em meio à inundação. Eu tinha surtos de deus criador, pretensão dos diabos, domar aquilo que não se cavalga. Por pouco não nos esbarrávamos, por menos ainda não nos esbarramos e por pouco não me tornei cinza novamente. Mas um dia duas luzes se acenderam e conseguimos nos enxergar. Não mais cegos pela luz incessante, não mais perdidos numa sala escura. E então nós dois ouvimos um som gostoso, coceira das boas nos ouvidos. "Oi", era o que ouvíamos. E uma festa em nossas mentes estava prestes a começar.

Wednesday, December 14, 2005

Vamos dividir uma vida?


Minha vida estava prestes a começar de novo. Encabulado entre meus pensamentos-delírios, esperava ela chegar. Queria dizer tantas coisas, esboçava frases e reações para logo depois deixar qualquer fórmula barata de lado. Diria a primeira coisa que viesse à mente. Decidido. E enquanto esperava, tentava criar a nuvem mais bonita. No meio daqueles papeizinhos e dos cafés da mesa, eu tateava minha vida. Não veio nenhum garçom limpar minha vida. Aquela mesma vida que diziam ser a minha, aquela mesma que julgava ser a minha, a mais conveniente. Entre bitucas de cigarro, ficava imaginando como seria essa nova encarnação. Assustado, como quando nos deparamos com algo que não entendemos. Meio triste, já distante daquele mesmo que morreu lá na entrada do bar. Eu estava de luto. Promessas de felicidade que se cumpriam. Eu sorria. E inexperiente. Eram meus primeiros passos. Teria que aprender de novo. E naquela mesa, lá nos fundos, ao mesmo tempo eu sentia o medo do noivo no altar. Ela estava atrasada. E eu, de olhos fechados. Até sentir suas mãos junto da minha. E então abri meus olhos.

A decadência bonita

Quando não sei muito bem o que fazer da vida, saio andando. Simplesmente por qualquer lugar. Pode ser um mero passeio para esticar as pernas. Mas, na maioria das vezes, andando como se estivesse à busca de algo. E, nessa minha imitação de obstinação de caçador, vou esboçando formas para o que procuro. Uma espécie de saudosismo de mim mesmo. E então vejo o eu de ontem. O eu do mês passado. O eu de dez anos atrás. O eu que quase se casou. E, mais para frente, tenho espasmos místicos. Tentativa de previsão de um futuro às cegas, planos estratégicos que mudam a cada esquina vencida.

Nesses momentos bocós/pseudo-intelectualóides (na verdade, pura falta de coisa melhor pra fazer, sejamos sinceros), ainda não achei lugar melhor para trilhar do que a rua Augusta, de cabo a rabo. Aliás, nunca prestei atenção onde ela realmente começa (é lá nos Jardins ou lá no centrão?), ou quantos nomes ela tem (a av. Europa e a Martins Fontes são a Augusta com outro nome, certo?). Mas vou traçando rotas pessoais, tão óbvias em todo o caso, para essa rua que faz um resumão da ópera da vida.

Você é quem escolhe onde é o começo e onde é o final. Tá, vamos pela rota mais pessimista, a da decadência algo bonita, a que rende histórias mais amarguradas. Afinal, é a rua Augusta, gatinhas e gatões, e convém sempre retomar a palavra "punk" e carros assassinos e poluição e São Paulo caindo na sua cabeça, esmagando seu cérebro.

Então, nessa rota mais maldita, você tem o sujeito que nasce em berço limpinho, como a Augusta lá dos Jardins. Região mais valorizada, vizinhos ricos, tem até delegacia e sonhos de segurança lá por perto. Como o cara de boa família, que tem bela educação, amor dos pais, alimentação saudável, aquela coisa de futuro brilhante pela frente.

Ele vai crescendo. Como a Augusta, sua vida vai sempre para o alto. Não é uma jornada fácil. Lá pelas tantas, suas pernas se cansam, e você pára na lanchonete para tomar um suco de laranja. Ninguém disse que seria fácil. Nosso amigo do berço vai enfrentar as criancinhas diabas do jardim de infância. Vai ter seus primeiros traumas. Vai ter que ir à escola mesmo nos dias mais cinzentos de chuva, aqueles dias em que tudo o que queria era ficar em casa tomando chocolate quente enquanto os desenhos animados corriam soltos na TV.

Mas ele vai. Ele vai crescendo. Suas roupas logo são abandonadas, tênis duram poucos meses. Ele fica alto, e titias demônias vão sempre lembrá-lo disso. E ele ganha o passaporte para a adolescência, ele que nunca se interessou muito por alturas. E avisaram que esse presente ele não poderia recusar. E lá pelas tantas, ele se vê no seu ápice físico.

Energia transbordando, um desejo lá bem dentro dele querendo sair, sempre de olho em belos rostos. E tudo que ele quer é devorar esses rostos, e sugá-los, e viver a vida.

Viver a vida.

E ele vê que tem que construir sua vida. E ele vê que tem as armas para isso, seu corpo é jovem, tá preparado para o que vier. Tão bom que pode tentar estragá-lo à vontade. É mais um ser imortal, claro.

À sua frente está a avenida Paulista. E, de repente, as coisas começam a ficar mais planas. Um breve momento de estabilidade. E ele se dá conta que está na plenitude de sua vida. Ganhou belo emprego. Sua produção está a milhão, tudo que ele toca fica genial. E um belo rosto o acompanha, faz planos de viver para sempre com esse belo rosto.

E fica com medo, porque não há mais para onde subir. Sente frio, porque está em um dos pontos mais altos da cidade.

Então, ele segura a respiração e vai em frente. Daqui a pouco, só haverá descida. Ele fica mais velho a cada esquina. Não há mais riqueza, só o charme da decadência. Sim, porque ela, a decadência, tem um charme irresistível que dá uma sobrevida a qualquer morto-vivo.

E, ali, entre mortos-vivos, você vai se divertindo, porque não encontra mais barreiras. E sua perna fica menos cansada porque descer sempre é mais fácil. Você pode até se largar, como os mendigos que se amontoam por ali, já que a lei da gravidade vai te empurrar. É lei. Se você não colocar freios, você cai fácil.

E ele encontra prazeres da juventude por ali, maquiados, e você aspira a pureza. Ele finge que são os mesmos prazeres. Sente que há apenas reflexos daqueles velhos dias. Tantos bares, tantos puteiros. Tantos prazeres à venda.

Prazer de verdade não se compra, ele lembra, mas mesmo assim saca seu talão de cheque. Nunca mais subir, nunca mais ter um belo emprego, nunca mais ter uma produção genial, nunca mais nada sendo como antes. As promessas que não se cumprem. É o fim?

Os malditos sempre sobrevivem, de um jeito ou de outro. Nas páginas da história. Sobrevivem enquanto houver uma pessoa a velar essa história, mesmo que em relato oral.

E enquanto termino na minha cabeça essa revisão da história (de qual personagem mesmo?), fico tentando imaginar como era a Augusta, ou a cidade, nos momentos de virada. Nos momentos que precederam a decadência. Lá pelos anos 70, Brasilsão sofrido, ditadura comendo solta, tascando o cacete na rabiola do povão. Estuprando as cidades, decretando o fim.

Os momentos finais da Augusta. Quando as madames pararam de ir para lá. Quando a primeira loja/café luxuoso do lado do Centro fechou. A abertura do primeiro puteiro. A trepada da primeira puta. O primeiro cliente. A gozada desse primeiro cliente. Sei não, mas acho que ele brochou. E nem gozou.

Lembrei de uma música agora. Citações sempre necessárias.
Do disco Trashland, das Mercenárias:

Ação na Cidade

meu corpo dolorido
minha mente cansada
reprises na tv
reprises no rádio
o medo é gritante
a destruição constante
os meus anos reclamam
ação na cidade

meu corpo dolorido
lágrimas no rosto
eu não tenho armas
eu não tenho nada
imagens, mitos
palavras, palavras
o meu corpo nu
ação na cidade
ação na cidade

Monday, November 21, 2005

O amor em Plutão



Quando fomos morar juntos, ela quis o prédio mais alto da cidade. De nosso apartamento, víamos a cidade inteira. Luzes de neón, faróis cintilantes, chuva ácida, carros voadores. E, lá de nossa torre, víamos as pessoas se doendo. Quando olhávamos mais alto do que o céu, dávamos de cara com Plutão. Eu e ela, garoto-Plutão e garota-Plutão. Órbita irregular, o mais distante dos planetas, 248 anos para rodear o sistema solar. Encontro improvável. Nos encontramos. Nosso caso de amor. Nada de ruim aconteceria conosco enquanto estivéssemos naquela órbita, eu e ela, lá no alto da cidade. Quando nossos planetas se chocavam, ela sentava na janela e comia seu macarrão. Eu ligava a TV, olhava para além da tela e fazia minha oração silenciosa: "Obrigado".
E logo entrávamos em órbita novamente.

Sunday, October 30, 2005

Nosso caso de amor


Ela só procurava uma escada. Eu trabalhava como limpador de janelas, daqueles prédios gigantes, sempre me equilibrando. Minha escada nunca ia alto o bastante. Mas ela quis me escalar assim mesmo. Assim as coisas foram indo. Até o dia em que eu cansei de carregar escadas pela cidade afora. Queria apenas estar no topo, não importa como. Ela não se importou. Estava mais modesta agora. Não queria escalar. Para ela, bastava se apoiar. Uma vez carregador de escadas, sempre pensando em apoios. Dei meu ombro, minhas costas, minha face, minha vida. Ela esquenta minhas costas. E assim vamos indo.

Festa: primitivo eu sou

Volta e meia a gente dava uma festa. E, nos achando tão modernos, éramos apenas primitivos. Na caverninha escura, todos tateando faces que eram reveladas apenas no pipocar fugaz dos estrobos.

E eu ficava me sentindo um bárbaro, um huno sujo, feio e malvado. Que, após degladiar com inimigos em mais uma batalha e se empatufar com uma coxa de um javali assado (com tecos de gordura enfeitando meu rosto e cabelo), vai se esbaldar em sua pista de dança, entre jarros do vinho mais cafajeste.

Nós éramos os índios que cantavam para os deuses. Os esquimós que faziam sua rave em iglus. A tribo africana que reverenciava o Sol. Os cães que cheiram rabos alheios.

Uma pré-pista de dança. Mas, se pensarmos bem, a essência das festas deve ser a mesma. A questão é celebrar. Retornar ao jardim de infância. Deixar a nossa identidade do lado de fora. Quer dizer, ao menos aquela parte da identidade que vai nos tolhendo desejos que não podem ser expressados em dias de não-festas. Amores expressos.

E eu sorria. E a pouca luz não deixava isso evidente para os outros. Mas não era problema algum. Porque aqui, nas festas que a gente dava, éramos representações de nós mesmos. A lenda dizia que nosso verdadeiro eu era o que estava em jogo, se jogando na pista.

Nos abraçávamos...como nos abraçávamos. A cada pessoa que entrava pela porta, uma nova festa. A festa dentro da festa. Inibições deixadas de lado, o álcool e as drogas entrando no ritual do mundo moderno que exorcizou os exorcismos psíquicos e os deuses e os diabos. Padrão ISO-9000; pegue sua senha e tenha seu exorcismo burocrático, conecte-se ao mundo internético de Marlboro.

Nós conversávamos. Todos nós. E falávamos sobre como tinha sido nosso dia. E falávamos sobre como gostaríamos que tivesse sido nosso dia. E falávamos daqueles que não nos quiseram. E falávamos como teria sido boa aquela trepada. Que nunca aconteceu. Que sempre ficaria para o dia seguinte. Falávamos de como o dia tinha sido difícil, de tantas injustiças no trabalho, e de como fulano e fulana foram escondidos ao banheiro para chorar. No banheiro daqui da festa as pessoas apenas aspiram. E, do lado, de fora, as pessoas batem na porta do banheiro porque têm muita água no corpo.

E falávamos sobre o dia em que não precisaríamos mais dessa necessidade quase religiosa de celebrar. Do dia em que as celebrações não acontecessem apenas durante o final de semana. De um dia em que a vida corresse gostosa segunda, terça, quarta, quinta afora. E falávamos e blasfemávamos sobre tudo aquilo que tentávamos ser, mas não conseguíamos. E de como a amiga sorria disso, e de como amigo chorava e se tornava mais um corpo da massa disforme que adentrava a pista.

Além de huno, eu era uma formiguinha. Uma abelha que, sem saber como nem porque, fazia a rota da flor até a colméia. Como o ganso que, com seu devido cérebro de ganso, voava e se organizava aos outros gansos, magnificamente para sua emigração.

Eu abria as portas e dava a festa. E me dirigia ao bar, e tomava meus líquidos, e sorria para quem eu nunca via sorrir durante o dia, e falava, e dançava, e beijava pelos cantos. Aqui era lugar e hora de esquecer a repressão. Consultório prático, campo de experimentações, lugar de médicos e monstros em confronto, com preferência para criaturas de intensidade sexual e instintiva e fraternal disponíveis aos mais felizes dos seres.

Sunday, October 23, 2005

Perto demais

Viramos gente grande, mas continuamos fazendo lição de casa. E fazemos provas e tem toda aquela ansiedade para passar de ano. Só falta estrelinha da tia no caderno. E vamos emburrados pra escola, faça chuva ou terremoto, sol ou maremoto. Tem ainda os amiguinhos da firma. Sentamos lado a lado, como naquelas carteiras grandonas que tinha na escola. E lado a lado, estavam os “normais” e os “esquisitos”.

Falo disso porque hoje minha lição de casa, a missão do dia, foi ir ao Rio de Janeiro. Subir e descer morros, entrar em táxis para gritar, empolgado: "Siga aquele carro", e me sentir num filme de espionagem. Tudo para seguir uma banda de rock. A trabalho, que fique bem claro. Inspetor Clouseau, e não Bond, James Bond, que fique ainda mais claro. Por aqui há mais tropeços do que galanteios.

E o primeiro táxi que pára é dirigido por uma mulher. Aquela expressão cansada, de 40 e poucos anos envelhecidos demais, da dureza adquirida nas ruas, da profissão abraçada como que por falta de opção. E aquele preconceito (meu) ao entrar no carro e pensar, apenas pensar, já que a mente barra qualquer explosão inconsciente de falas, "Nossa, uma mulher". Sim, porque só o fato de ficar espantado já é um tipo de preconceito. Como se, pelo fato de 99,9% de motoristas de táxis serem homens, ser conduzido por dona Suely (esse é o nome dela) fosse algo estranho.

Eita palavrinha que tenho birra. Quer dizer, a maneira como ela é utilizada, sempre de forma algo pejorativa. Se 99,9% das pessoas sente prazer em, sei lá, comer, quer dizer que aquela minoria que come por obrigação ou que transa por obrigação em vez de por prazer (considerando aquela parte da população que pode se dar ao luxo de escolher, claro) é esquisita? Como se o esquisito tivesse que sumir devido à sua "insignificância" numérica perante à multidão de iguais.

Claro, relativizar tudo não ajuda na coisa. Poderíamos dizer "Ah, se o homem mata, isso é da natureza dele, então tudo é válido na vida". Não, gatas e gatos, antropologicamente falando, há um limite para os seres em seu estado selvagem, em seu estado primeiro. As coisas começam a ganhar limites quando a integridade física do outro começa a ficar ameaçada, óbvio. E como lembrou Fred 04, e não Freud, no show aqui no Rio, o senhor de engenho, o dono da fazenda, há uns 100 anos, era aquele cara que falava “Fodam-se os abolicionistas. Eu tenho o direito de ter o meu escravo. Tenho o direito de comprar meu escravo e dar umas chibatadas nele”.


“Ter o direito a ....” não te lembra nada? Todos têm direito a algo. Mas vamos lembrar que o horizonte contempla paisagens mais interessantes que um mero e imenso umbigão.

Mas eu tava falando dos esquisitos. E de lição de casa. O que faz, daqueles 40 aluninhos que receberam as mesmas lições e que viram as mesmas aulas, na infância, se tornar um "esquisito"? E queira ou não, são os "esquisitos", os "diferentes", que incomodam. Que dizem: "Não, obrigado, não quero fazer parte, quero fazer de outro modo".

No fundo, tudo é uma grande bobagem, dividir o mundo em dois. Mas é assim que acaba sendo, vai ser assim. Quando menos vemos, tamos lá: “Nossa, que sujeito exótico”.

Daí você se recorda, sempre com certo desconforto, de como sua classe se dividia em dois quando você era pequeno e era obrigado a fazer aulas de educação física. Quando você ficava numa fila esperando ser escolhido para fazer parte do time de futebol,basquete ou vôlei, e você era um dos últimos a ser chamado. Ou de como, desde muito pequenos, já somos cruéis uns com os outros, rindo das fraquezas alheias, alguns de forma explícita, outros de forma mais velada.

Daí que, voltando, o Rio tem aquela geografia tão gostosa, e tão primitiva, e tão surreal, e tão "esquisita". Fique alguns minutos olhando da sacada do hotel, do prédio, de algum lugar alto que seja, olhando para os morros e a multidão de prédios incrustados em meio aos morros. E comece a imaginar como essa paisagem era há milhares de anos. E de como foi a construção do primeiro prédio, a devastação da primeira floresta, como surgiu o primeiro concreto que tomou o lugar do verde, e do último verde que deu lugar à paisagem de brancos concretos.

Convivência, né? E aqui vai citação do dia:

Viver é conviver
Conviver é coexistir
Coexistir é irremediável