Monday, September 03, 2007
Amor no osso

Quando nós terminamos, resolvi tirar uns dias de folga. Fiz uma voz de doente, liguei lá para o serviço, disse que estava com umas dores, sem especificar direito o que era. As dores, hoje, são tão genéricas, vêm de tantos lugares, que eles nem me questionaram. Mas eu estava mesmo doente, só não era uma doença oficialmente aceita.
Fiquei quietinha, sem sair de casa. Sem fazer barulhos, procurava me mover o mínimo possível. Se eu me mexesse, eu sabia que algo em mim quebraria. Resisti à tentação de ficar lembrando os últimos momentos, por que deu errado, o que eu tinha feito, o que ele tinha feito.
Em vez disso, preferi pensar sobre como seria meu próximo namorado. Ou amante, melhor, acho que namoro só de tempos em tempos. Não dá para emendar um no outro, né? Eles ficam todos parecidos uns com os outros quando a gente faz isso, eu acabo trocando os nomes e, no fundo, eu adoro sofrer um pouquinho, durante um tempo. Fico me sentindo chique. Solitária, mulher abandonada, abraçada na minha garrafa.
Decidi que, quando encontrar meu próximo amor, terá que ser um amor básico. Algo primitivo. Não, não estou falando de sexo. Quero que ele e eu sejamos apenas esqueletos. Não quero mais pele. Amor no osso. Na essência das coisas.
Não vamos nos maquiar tanto para nos amar. Não teremos mais faces, não teremos mais pêlos. Não teremos mais corpo, apenas uma estrutura primeira. Não vou olhar para seu corte de cabelo, você não vai olhar para as minhas roupas. Não quero saber quanto você ganha, porque enfim não teremos que trabalhar, vamos fazer apenas o que gostamos.
Talvez a gente não converse tanto, afinal, não teremos boca, nem garganta, nem pulmão, mas vamos transmitir pensamentos, isso eu tenho certeza. Nunca terei certeza de quando você estará me olhando no olho, porque não teremos olhos, e não precisarei escovar os dentes antes de te beijar, porque talvez a gente nunca chegue a se beijar.
E quando o desejo arder, se ele arder, iremos transar, mas quando a gente transar, vamos apenas ralar, e vamos fazer barulhos, porque seremos iguais em cima e embaixo, e então não teremos mais sexo. Mas vamos continuar nos encaixando, porque os ossos duram bastante, e não apodrecem tão rápido quanto a carne.
E o amor vai continuar, soterrado por camadas e mais camadas de terra, e seremos descobertos pelos arqueologistas do futuro, porque no futuro seremos artefatos do passado. Amores do passado.
Sunday, September 02, 2007
O tempo é um amigo precioso
Eles ainda me surpreendem. Deve ter sido o vigésimo shows deles que eu assisti, mas ainda assim, saio sempre emocionado. Sábado passado, lá no Studio SP, show classudíssimo do grande Cidadão Instigado. Show para muito poucos, ou poucos muitos, mantendo assim o clima gostoso de segredo entre amigos. Eles me emocionam. E as pessoas dançam, choram, e encontro amigos queridos. Sábado à noite tudo estava lindo, como um bom sábado deveria ser sempre. Não sou muito de reproduzir aqui as matérias que escrevi para o jornal, mas vai aqui uma exceção. Era um dos primeiros shows que eu via do Cidadão, eles tinham lançado um disco que entorta as pernas até hoje (foi em 2005, e a banda fazia uma temporada classe no Grazie a Dio!) e as pessoas estavam apaixonadas. Porque o tempo é um amigo preciso.
Aí vai:
Não há dia da semana mais cruel para a ressaca amorosa que a segunda-feira. Da paixão que atinge os píncaros do arrebatamento numa noite de sexta às brigas e o rompimento num sábado amargo, o cidadão que ficou instigado tem pela frente apenas a depressão de um domingo solitário. E os sobreviventes, estes ainda sentem o gosto do amor amanhecido na preguiçosa segundona em que a vida pessoal tem que dar passagem para a vida de trabalho.
Por isso, a chuva fininha, triste, que caía em São Paulo na noite da última segunda até parecia jogo de mise-en-scène. Era também o primeiro show da banda cearense Cidadão Instigado em temporada no Grazie a Dio!, na Vila Madalena, onde tocarão durante as segundas de novembro. Por ali, um coração dilacerado chamado Fernando Catatau irá cantar as músicas de um dos melhores discos do ano, "Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências".
Catatau conhece o espírito mutante do amor. No palco, recombina códigos da música popular. Parece perguntar: "Afinal, o que é o brega?". Entra, assim, sem pudores, no quartinho da empregada, quando canta "Te Encontra Logo..." e esbarra em Roberto Carlos. O músico franze a testa e fecha os olhos -larga a guitarra para colocar as mãos no peito. "Não quero estar recuando o meu sentimento e a minha alegria/Acho que estou te esperando/ o que talvez você já saiba." Ele sofre.
O músico sabe que a paixão é fugaz. Quando ela se vai, resta cantar e relembrar, para além das dores de corno. Por isso, o músico celebra os últimos instantes antes da putrefação. Por isso, uma canção como "Os Urubus Só Pensam em Te Comer". O arrebatamento pode ser esquisito, por isso uma música experimental sobre "vacas que estão velhas e loucas".
O amor altera mentes tranqüilas. Vai encontrar lá no inconsciente prazeres até então desconhecidos. "Preciso de um pouco de água com açúcar para me tranqüilizar", o desesperado Catatau pede na roqueira "Calma!" O cenário só se completa quando a iluminação reflete bolinhas de luz de um globo no teto. Somos transportados para a mais cafajeste das churrascarias, onde casais suspiram ao som de clones do Rei. Depois, um telão no palco vai mostrar imagens congeladas do público e da banda. Estamos em um baile de debutante e acreditamos em príncipes encantados.
No seu mergulho nos meandros do coração e da canção popular, a banda encontra o universal. Para o Cidadão Instigado só resta pensar sobre "O Tempo", que promete cura para todos os males (inclusive o escasso sucesso comercial). "Já não sou mais o menino que você deixou/o tempo é um amigo precioso/ que faz questão de jogar fora/aquela mágoa vencida." E assim termina a experiência que foge à todas as regras e pela qual todos adoram ser cobaias.
Sunday, August 26, 2007
Wednesday, August 22, 2007
Vem, vamos dançar

Atolados no sofá, num final de semana de tantas opções e nenhuma escolha, eles resolveram ficar em casa mais uma vez. Sem festas, sem jantar na casa de amigos, sem passeios no parque. Ficariam apenas os dois.
Sem sexo.
Antes, era a cada cinco minutos. Naqueles tempos, deixavam uma garrafa de água ao lado da cama, para não desperdiçarem nenhum instante.
A televisão, dona do lar, agora gemia pelos dois. Naquele sábado à noite, eles vislumbraram uma inusitada esperança. Estava lá, aquele mesmo filme que viram juntos há tantos anos, logo no começo, dos dias da água abundante.
Izumi podia jurar que era, de fato, o primeiro filme deles. Durante um tempo, foi “o” filme, mas apenas por um tempo, porque logo depois esse tipo de intimidade e cumplicidade não dizia mais nada para os dois. Tinoko até se levantou, ergueu as costas e sentou ao lado dela. Mas não chegou a pegar em sua mão.
Juntos, iam mais uma vez ver o filme. E, naquela antiga lembrança, os dois novamente tinham um pensamento em comum. Esperavam sentir de novo, apenas mais uma vez antes do fim, aquela inspiração que tanto ajudou para que eles se unissem. Daqueles filmes que lhes davam vontade de sair do cinema correndo para, eles mesmos, entrarem numa trama.
Mas, enquanto a ação se desenrolava, Izumi e Tinoko ficaram impassíveis, ela com sua meia rasgada, ele com sua calça encardida. Não conseguiram ver nada na pequena tela, a não ser aquela outra história que eles já estavam cansados de assistir. E repararam que aquele filme não era tão bom assim.
Sunday, August 12, 2007
The girls and the boys
Não importa se você é mulher ou homem. Somos todos James Bond com Bond Girls ou Bond Boys em nossas histórias
Máquina de café

Você iria achar superestranho, e eu não iria te censurar. Por isso, só vou te contar daqui a um tempo. Não dá para forçar intimidades assim, logo no começo, não é? Claro, a gente sabe que no começo tudo é um grande teatrinho. Eu finjo que sou perfeito, você finge que acredita, eu vejo beleza em cada espirro que você dá, você fica prestando atenção em cada nuance das cores do meu cabelo, eu acho você a garota mais fantástica do mundo. Nós acreditamos. Temos que acreditar.
Talvez por isso mesmo não dá para te contar tudo. Vamos aos pouquinhos. A cada dia eu prometo descer um degrau do céu. Mas você vai comigo. Ah, claro, eu tenho preguiça de sair todas as noites. Sim, você acha um saco ir ao cinema todo final de semana. Tá, Woody Allen não é tão genial assim. O quê? Você ficou com ciúme das minhas amigas? Mas você não tinha prometido jantar comigo hoje? A cada dia, vamos descendo um degrau até a gente chegar numa base bem segura, onde vamos poder nos abraçar bem forte.
Por enquanto, eu faço um esforço tremendo para acordar antes de você. Só para ter aquela estranha sensação que dura alguns milisegundos, depois que a gente acorda, depois de um sono gostoso. Alguns breves instantes em que você não sabe quem é, onde está, se é dia, se é noite, qual é o seu nome. Só sei que dá um alívio enorme acordar ao seu lado. Gosto de olhar para o lado, e ver que você está ali.
E fico um tempão bem quietinho, só olhando para você. Assistindo a você dormir, e pensar o quanto esperei tanto para que a gente enfim se conhecesse, e ficasse junto. E vou relembrando cada etapa. Da primeira vez que te vi. Forço a cabeça pra lembrar que roupa você estava usando. Se você estava sorrindo ou séria. E depois forço um pouco mais, e tento lembrar qual foi a sensação que eu tive na primeira vez que ouvi a sua voz. E vou buscando, palavra por palavra, a primeira frase que trocamos.
Fico aqui, bem quietinho ao seu lado, para não te acordar. Sim, é meio estranho, sei que você não é um filme ou uma instalação num museu para eu ficar assim parado e te olhando.
Mas eu tenho tido dias felizes ultimamente, e eu, que nunca gostei de acordar tão cedo, agora tenho mudado de hábitos, e deixado aquela mania de ficar tão sozinho de lado. E eu preciso te olhar bastante, para ter certeza de que você está mesmo do meu lado, e para ter certeza de que você realmente existe, e para que eu não confunda mais os sonhos e a realidade e os desejos e as coisas que já foram, e as histórias de outros que eu li ou ouvi no caminho para casa e as histórias que eu mesmo vou construindo, e as histórias que eu vou escrevendo, e as histórias que nós vamos vendo nos filmes, e as histórias que vou criando todas as noites só na minha cabeça.
Saturday, August 04, 2007
The Greatest
E quantos pinos vão cair?
Mas no final das contas isso não importa; nunca vou saber, e nunca vou me lembrar
Noite passada, manhã ressecada

Izumi passou a noite inteira ao lado da janela. Era uma festa, sabia bem, e esta era a oportunidade de encontrar aquele famoso alguém legal, alguém para levar para casa e passar algum tempo. Alguém para ao menos acordar ao seu lado. Mesmo que esse alguém acordasse antes dela, tossindo por causa de tantos cigarros da noite passada. E esse alguém fosse embora antes de ela acordar, sem ao menos deixar um bilhete, ou um beijo de despedida.
Isso não era problema para Izumi. Ela passara a tarde inteira naquela cabeleireiro, e passara a tarde na loja, escolhendo as melhores roupas, mas aquilo não era para ninguém. Ela queria acordar sozinha no dia seguinte. Izumi queria celebrar a sua própria existência.
Porque esta noite ela se dedicaria apenas aos seus prazeres. Ela beberia o quanto quisesse, não teria que dar satisfações a ninguém. As coisas seriam mais divertidas, no final das contas. Ela dançaria as músicas que desse vontade, e cantaria até a voz lhe sumir. Não precisava de voz naquela noite, já que não queria falar com ninguém. Apenas suas músicas prediletas, e sua dança particular. Poderia chegar à hora que quisesse, poderia ir embora sem ao menos perguntar se poderia ir embora. Era apenas colocar a mão na maçaneta, estou indo embora.
Não pensaria em Tinoko, e não pensaria nas tardes preguiçosas, e fingiria não sentir saudades dos tempos em que tinha que negociar cada gole de bebida, e cada respiro aliviado. Porque há tempos não se lembrava mais. Izumi estava anônima ao lado da janela, e aquilo era tudo que ela sempre quis. Ao menos por uma noite, ao menos nesta noite, em que se sentia a maior de todas.
Saturday, July 21, 2007
Be my wife

Fiquei hoje o dia inteiro pensando em você, e não via a hora de chegar aqui, só pra te ver. Poderíamos ficar apenas esperando o trem chegar, e passar aquela hora do fim da tarde que você acha tão triste, quando o sol começa a baixar e o céu fica todo avermelhado para depois ficar naquele azul escuro que você tanto odeia, antes de chegar a noite, quando não sabemos mais se é dia ou noite, aquela hora em que você fica amargurada, e com a garganta rígida, você engole seco, e se lembra de tudo aquilo que você viu e fez no passado que tão cuidadosamente tenta se esquecer durante os dias, e pensa até em não esperar mais nenhum trem, e apenas se jogar num vão, e ser digerida por um trem, nessa horas poderíamos ficar o tempo todo juntos, e conversando e falando sobre o que você fez em casa durante o dia, e o que você fez de novo no trabalho, e eu ouviria com cuidado todas as suas queixas.
Eu até faria perguntas sobre seu trabalho. Ficaria indignado com aquelas pessoas que te trataram tão mal naquele escritório hoje. Eu faria caras e bocas, e me estressaria, e ameaçaria ir lá quebrar a cara daquele idiota, quem ele pensa que é para falar com você dessa maneira?
Fiquei o dia inteiro pensando em você, e agora estou ao seu lado, e podemos ficar aqui apenas olhando os trens, e vendo cada pessoa que passar na nossa frente. Ao seu lado, eu vou criando a minha história.
Vamos criando outras histórias. Olha só aquela senhora com tantos agasalhos, o que acontece com ela, já que nem está tão frio assim hoje? Ah, ela deve viver tão sozinha, mas tão sozinha em casa, com seus gatos, que a vida anda meio gelada com ela, e gatos são fofinhos, mas não são tão quentinhos quanto aparentam.
Olha só aquele moço, que passa tão apressado, e ele tenta entrar no vagão, mas não cabe mais ninguém lá dentro, você diz. Mas essa é a idéia dele, eu digo, já que ele nunca consegue se incluir, tem tão poucos amigos, o coitado, que às vezes até começa a ouvir vozes e falar sozinho quando está em casa, então ao menos num vagão lotado ele consegue entrar, e enfim por poucos momentos ele pertence a algo.
E pensando tanto em você hoje, eu trouxe rosquinhas para você comer, mas se achar muito seco, podemos ir até um café, quem sabe você pode até deixar as rosquinhas de lado e podemos comer algo de verdade. Mas vamos falando de coisas que podemos fazer agora, nesse comecinho de noite, e quando vemos, já passou tanto tempo, e pensamos em tantos lugares, pensamos naquele filme engraçado que você tinha ouvido falar em algum lugar, será que ainda ta passando no cinema?
Ah, acho que não, só deve ter uma sessão hoje, afinal, já está tanto tempo em cartaz, mas, ah, devemos ser especiais mesmo, já que todo mundo viu esse filme, menos eu e você no mundo, e pelo jeito vamos terminar nunca vendo esse filme. Nós dois, apenas nós dois num mundo fora de um cinema.
Podemos ficar aqui, e isso não será nenhum problema, com você ao meu lado, e fico imaginando como seriam as coisas se a gente nem se conhecesse, e se eu estivesse aqui, sentado nesse banco, só imaginando coisas, e de repente eu tenho medo de que você seja apenas mais uma pessoa que eu estou tentando adivinhar a vida, e me vejo sem palavras para trocar com você, e fico te olhando e sorrindo que nem um idiota, e eu não consigo entender por que eu, e você, duas pessoas tão interessantes (é o que vivem dizendo, não é?), não temos nada para falar um para o outro, então vamos parar de pensar, e vamos ficar aqui, apenas um do lado do outro, enquanto eu te olho, e você me olha, e nunca nos falamos.
Sunday, June 24, 2007
Toda noite uma despedida (2)

Izumi me deixava confuso. Quase deitado naquele sofá, e lá se vão anos e anos de correção da minha postura corporal, eu já não sabia se Izumi e eu estávamos num daqueles momentos de drama de fim de caso ou se, ao contrário, tudo era apenas o começo, e eu estava misturando as coisas, lembrando da Azumi, a namorada que veio antes de Izumi.
Às vezes vivemos vidas dentro de vidas. E não dá mais para saber o que é de dentro, e o que é de fora. O jeito é continuar, ir absorvendo tudo mesmo.
E talvez eu e Izumi estivéssemos apenas sem graça porque não nos conhecíamos direito e não tínhamos muito assunto, já que até a noite anterior nós éramos dois perfeitos desconhecidos naquele bar vazio, prestes a fechar, que decidiram começar a trocar olhares, e que enfim começaram a falar uma bobagem qualquer, porque estavam loucos de vontade de se conhecer, do tipo “Olha só, que música legal essa que tá tocando”, no que um dos dois retrucou “Mas música é para ouvir, e não para olhar”, e começaram a rir um do outro, e trocaram nomes, risadas, bebidas, e confissões que não se fazem para qualquer um, e histórias aumentadas para melhorar a realidade, para logo em seguida terminarem a noite num daqueles motéis disfarçados de hotéis, já que a ocasião descompromissada não permitia que a noite terminasse na casa de nenhum dos dois e nem num daqueles motéis megaluxuosos estilo parque temático, e nem num cafezinho antes para disfarçar as reais intenções, mas em nenhum dos casos não mudaria o fato de que os dois se sentiriam constrangidos por ficarem nus, eles que não se conheciam, e sabiam apenas um sobre o outro informações selecionadas a dedo, porque o objetivo era exatamente esse, terminar na cama, e um pouco de carinho sempre é necessário, é inverno, você sabe, mas era justamente essa impessoalidade que permitia que nós dois não precisássemos ficar tão constrangidos, e pudéssemos pôr em prática as posições apenas anteriormente teorizadas.
E talvez eu e Izumi estivéssemos apenas sem graça porque não nos conhecíamos direito e não tínhamos muito assunto, já que até a noite anterior nós éramos dois perfeitos desconhecidos naquele bar vazio, prestes a fechar, que decidiram começar a trocar olhares, e que enfim começaram a falar uma bobagem qualquer, porque estavam loucos de vontade de se conhecer, do tipo “Olha só, que música legal essa que tá tocando”, no que um dos dois retrucou “Mas música é para ouvir, e não para olhar”, e começaram a rir um do outro, e trocaram nomes, risadas, bebidas, e confissões que não se fazem para qualquer um, e histórias aumentadas para melhorar a realidade, para logo em seguida terminarem a noite num daqueles motéis disfarçados de hotéis, já que a ocasião descompromissada não permitia que a noite terminasse na casa de nenhum dos dois e nem num daqueles motéis megaluxuosos estilo parque temático, e nem num cafezinho antes para disfarçar as reais intenções, mas em nenhum dos casos não mudaria o fato de que os dois se sentiriam constrangidos por ficarem nus, eles que não se conheciam, e sabiam apenas um sobre o outro informações selecionadas a dedo, porque o objetivo era exatamente esse, terminar na cama, e um pouco de carinho sempre é necessário, é inverno, você sabe, mas era justamente essa impessoalidade que permitia que nós dois não precisássemos ficar tão constrangidos, e pudéssemos pôr em prática as posições apenas anteriormente teorizadas.
E hoje eu estava na casa de Izumi.
-Izumi, por que sua casa está tão estranha?
Toda noite uma despedida (1)

Os momentos iniciais são tão desconfortáveis quanto os finais. Comecei a pensar nisso quando um amigo meu desabafou: “Terminar é uma delícia. Adoro terminar. É tão bom como quando a gente começa a namorar”.
Eu estava de novo na casa de Izumi. Ela sempre sabia como me deixar realmente mal. Toda vez que a gente brigava, aquelas brigas realmente feias, que te fazem pensar se vale a pena continuar insistindo, ela mudava tudo. Toda a decoração da casa.
Quer dizer, não chegava a mudar a cor das paredes, o sofá e nem chegava a trocar de televisão. Ela gostava de mudanças, mas se tudo mudasse, talvez Izumi esquecesse até seu próprio nome. Ela precisava de uma âncora.
E de novo eu cheguei, cabisbaixo, com o peito cansado de tanto brigar, e ela abriu a porta e falou para eu sentar. Caminhei por instinto até o sofá, mas não encontrei nada. Meus olhos levaram alguns rápidos segundos percorrendo a sala, até eu achar o novo lugar do sofá.
Eu estava de novo na casa de Izumi. Ela sempre sabia como me deixar realmente mal. Toda vez que a gente brigava, aquelas brigas realmente feias, que te fazem pensar se vale a pena continuar insistindo, ela mudava tudo. Toda a decoração da casa.
Quer dizer, não chegava a mudar a cor das paredes, o sofá e nem chegava a trocar de televisão. Ela gostava de mudanças, mas se tudo mudasse, talvez Izumi esquecesse até seu próprio nome. Ela precisava de uma âncora.
E de novo eu cheguei, cabisbaixo, com o peito cansado de tanto brigar, e ela abriu a porta e falou para eu sentar. Caminhei por instinto até o sofá, mas não encontrei nada. Meus olhos levaram alguns rápidos segundos percorrendo a sala, até eu achar o novo lugar do sofá.
Izumi conseguira de novo. Eu estava me sentindo desconfortável e incomodado com aquela casa que era a mesma, mas que ao mesmo tempo estava tão diferente.
Ela não falou nada. Devia estar cansada também, mas eu sabia que esse era seu jeito de lutar. Me deixando perdido, dando tempo e espaço para eu remoer o que eu quisesse na minha cabeça.
Eu poderia me sentir culpado, sentir raiva dela, ter vontade de simplesmente sumir e não ter que encarar de novo mais um começo, não ter que me adaptar novamente a um novo espaço onde eu não sabia nem onde ficava o sofá, e nem que cor era a tampa da privada, e nem ter que pensar em recomeços, ou pior, novos começos, porque acho que no fim das contas, tudo estava se encaminhando para isso. Mas antes teríamos que vislumbrar um fim.
Saturday, June 16, 2007
Sweet little girl, I wanna be your boyfriend

No dia 16 de junho de 2007 eu estava completando 25 anos. Lembro que era um sábado e que, na noite anterior, decidi ficar acordada para celebrar sozinha o meu aniversário. Minha mãe me dizia que eu tinha nascido às 6h45 da manhã. Geralmente eu não ficava acordada nesse horário.
Tava numa fase chata. Não gostava mais de varar a noite dançando e chegar em casa com o dia claro. Você acredita em maturidade emocional aos 25? Eu acredito em lendas. Nas últimas vezes que eu tinha chegado em casa com o Sol batendo na minha cara, queria só cortar os pulsos. Chegar em casa, de dia. E o sábado, o domingo, ficavam todos estranhos depois de trocar o dia pela noite. Ressaca moral, sabe? Eu era cheia da moral.
Mas queria um ano diferente. Os 24 não foram legais. Foi um ano parado. Não que as coisas tivessem dado errado. As coisas simplesmente não aconteceram. Então, eu achava que, se começasse aquele ano desde o primeiro segundo acordada, bem acordada, sóbria, e cheia de pensamentos de coisas boas, quem sabe um pouco de moral, Papai Noel, e uma lista com planos do tipo plantar uma árvore, apagar a luz dos ambientes em que eu não estivesse, desligar a torneira enquanto escovasse os dentes e rezar pelas baleias, quem sabe alguma coisa mudaria.
Então, naquela sexta-feira, saí às ruas numa noite quente de outono, eu e um monte de gente toda excitada com aquele calorzinho que vinha depois de dias frios, e uma brisa que arrepiava e deixava todo mundo com vontade de fazer coisas que a dona moral diria que não eram muito bonitinhas, como se o mundo fosse acabar amanhã.
Otimista e poliana, eu sabia que a hecatombe final não aconteceria no dia seguinte, o amanhã era meu aniversário de 25 anos, e isso era tudo para mim, então eu estava bem tranqüila, e andei, andei, andei, e fiquei olhando as pessoas arrepiadas e excitadas nas ruas, e eu só pensava nas 6h45 da manhã que chegaria, o momento exato que, anos antes, eu estava nascendo.
Tava numa fase chata. Não gostava mais de varar a noite dançando e chegar em casa com o dia claro. Você acredita em maturidade emocional aos 25? Eu acredito em lendas. Nas últimas vezes que eu tinha chegado em casa com o Sol batendo na minha cara, queria só cortar os pulsos. Chegar em casa, de dia. E o sábado, o domingo, ficavam todos estranhos depois de trocar o dia pela noite. Ressaca moral, sabe? Eu era cheia da moral.
Mas queria um ano diferente. Os 24 não foram legais. Foi um ano parado. Não que as coisas tivessem dado errado. As coisas simplesmente não aconteceram. Então, eu achava que, se começasse aquele ano desde o primeiro segundo acordada, bem acordada, sóbria, e cheia de pensamentos de coisas boas, quem sabe um pouco de moral, Papai Noel, e uma lista com planos do tipo plantar uma árvore, apagar a luz dos ambientes em que eu não estivesse, desligar a torneira enquanto escovasse os dentes e rezar pelas baleias, quem sabe alguma coisa mudaria.
Então, naquela sexta-feira, saí às ruas numa noite quente de outono, eu e um monte de gente toda excitada com aquele calorzinho que vinha depois de dias frios, e uma brisa que arrepiava e deixava todo mundo com vontade de fazer coisas que a dona moral diria que não eram muito bonitinhas, como se o mundo fosse acabar amanhã.
Otimista e poliana, eu sabia que a hecatombe final não aconteceria no dia seguinte, o amanhã era meu aniversário de 25 anos, e isso era tudo para mim, então eu estava bem tranqüila, e andei, andei, andei, e fiquei olhando as pessoas arrepiadas e excitadas nas ruas, e eu só pensava nas 6h45 da manhã que chegaria, o momento exato que, anos antes, eu estava nascendo.
E pensei nas minhas músicas prediletas enquanto eu não nascia, e até cheguei a cantar em voz alta, porque ninguém estava ligando mesmo para meu nascimento. Cantei e dancei. E esperei.
E não teve erro. Naquela madrugada de friozinhos na espinha, eu sabia que não ficaria deprimida com os primeiros raios de Sol. E sempre que o frio avançasse, eu poderia voltar para casa e tomar uma caneca de leite com café bem quente de manhã. Naquele fim de semana, eu não tinha hora para acordar.
Sunday, June 03, 2007
Toc toc, Plutão

Queira ou não, você é obrigado a se transformar. Basta ficar parado e, quando se der conta, você já terá altura suficiente para alcançar o topo do armário, aquele mesmo que algum tempo antes você tinha que escalar com uma cadeira. E o tombo não era raro.
Mas agora surgirá uma ajudinha extra. E, mesmo que, dia após dia, você tente fingir que as mudanças não acontecem, e que você atue religiosamente na sua rotina, como o melhor ator do Oscar e interprete com inegável competência e emoção o seu eterno papel de você mesmo, o papel vai mudar. É como se o diretor fosse demitido, e produtores mudassem o rumo da trama. Mas você continua atuando no papel principal, mesmo sem entender que novo filme enfim é esse. Interprete, com emoção, por favor.
E tudo porque Plutão, o planeta que não é mais planeta, mas que sempre será um planeta, já que não pode deixar um comprometido escorpião abandonado, resolveu ser o novo diretor.
David Lynch do espaço, Plutão chega quieto, dark, na dele, sem chamar a atenção de todos. A festa já está animada o suficiente, animadores de auditório são tão tediosos. No entanto, Lynch já sabe que o consciente e o inconsciente são irmãos gêmeos, um completando o outro, que o sonho é tão real quanto a lembrança de um ato passado, tudo se mistura por ali, numa massa única. E o que não é enfim real, se torna real depois de um tempo, e depois de mais tempo, pouco interessa, a mensagem chegou, ficou registrada, e produz filhotes.
Plutão, o mais distante dos planetas, 246 anos para passear pelo zodíaco e deixar uma marca por todos os signos. Quanto tempo não nos víamos, eu entendo que nunca existe a sua marca de cigarro favorito na padaria da esquina. Fidelidade obsessiva pela marca. Tem que ir de padaria em padaria da nossa galáxia.
O Pluto é o filho da Pluta, e sei que você precisa de um dia de santa e um dia de puta. De humor variável, entre 11 e 32 anos morando, namorando, sendo amigo de cada signo, amante constante, e deixando sua marca indelével. Novas vidas, dentro da mesma vida, você terá que aprender.
Porque Plutão é transformação, renascimento, a tal da Fênix que ressurge das cinzas, das cinzas não às cinzas, do pó para além do pó.
Ele manda avisar que ano que vem estará por aqui de uma vez por todas. Mas já deixa claro que 2007 já é seu de alguma maneira. A força não é pequena, já que tudo facilita, e já que 2 e 0 e 0 e 7 são 9, e 9 é a última etapa antes da renovação, e 9 carrega todas as experiências anteriores.
Zerar ou não zerar, eis a questão. Tenho medo de zerar, e mudar de papel, e não saber mais quem sou eu, quem é você. Mas um novo diretor pode salvar um filme fadado ao esquecimento, ou ao menos lhe dar uma nova cara mais simpática.
E 2007 é o ano de faxinas, e os velhinhos vão dando adeus, bye bye, século 20. O século 21 enfim começa. Estou preparado? Nunca estamos, mas é assim que tudo funciona.
Sentimentos bipolares, vou variar do mais extremo dos otimistas ao mais profético dos seres catastróficos, e lembrar de 1930, e dos vários ismos na Europa, e das grandes depressões nas Américas, e das primeiras e segundas guerras, e do derretimento das camadas protegidas da mente, e dos mergulhos de Jung e Freud. E o mundo nunca mais foi o mesmo. E a América nasceu, e mais 246 anos pela frente. Tudo porque Plutão trocou de casa, comprou roupas novas e tem sido visto em novas companhias. Dizem até que parou de beber.
Ainda há espaço para revolução, e para destruições, e reconstruções, e o mundo nunca mais será o mesmo. A história não acabou, nunca acaba, apenas nos esquecemos das histórias, apenas não nos damos conta.
Vou viver com você até 2024, e penso no que faremos juntos durante todo esse tempo, e quem serei eu, afinal, e se vou me reconhecer nesse novo eu, e em todos os filhos que você verá surgir de mim, e se vou gostar dessa companhia. E até não te encontrar de novo, lá por volta de 2200, quando meus netos e tataranetos enfim conhecerem você e te mandarão lembranças, e lembrarão para você tudo que eu sempre quis dizer na tua ausência, desde quando você foi embora, e não consegui encontrar as palavras certas para dizer um simples adeus porque enfim, eu estava tão mudado, e não sabia mais o que dizer, mas àquela altura, eu já era outro eu, então as frases não seriam mais as mesmas, mas um dia a mensagem chegará, alto e em bom som, ecoando a mais bela das declarações de amor.
Sunday, May 27, 2007
Moço bonito numa tarde de vento

Ela quer saber se os gatos têm memória. Já passou do teto branco às experiências de transmissão de pensamento.
Eles entendem, já ouvi dizer. E, não me lembro bem, eu já li em algum lugar sobre a memória dos gatos. Eram eles que guardavam apenas as lembranças mais imediatas? Ou seriam eles realmente clichês ambulantes, misteriosos, cheios de segredos e sabedoria? Não queria que meu oráculo fosse um felino.
Não me lembro. Li em algum lugar, em algum dia, em alguma revista. Qualquer informação me basta.
Mas gatos são leves, de uma leveza não só física, o limite não são os muros altos e os telhados e o mundo inteiro à disposição, e as brechas facilmente abertas, visíveis apenas para quem é muito rápido.
E leve.
Se lembrassem de tudo, pesariam. Não conseguiriam se mover, como se entupidos da mais assassina das lasanhas, e atolados na cama de gato mais aconchegante, comprada na loja de animais mais nova do bairro. Eles seriam pesados, como todos nós. Não queria me lembrar mais. Não existe memória seletiva.
A minha glória, em dias sem teto branco para olhar. A minha desgraça, em dias sem céu azul. Nesses dias, sonho com um novo começo diário. O dia em que todos os dias pudessem ser como a noite de Ano Novo. Uma vida inteira jogada para trás, apenas novas possibilidades a partir de agora.
Mas sempre tem um pequeno ato alheio, o refrão de uma música, um olhar de relance para me relembrar do teto branco. Tudo volta. Tenho saudades do moço bonito naquela tarde em que ventava tanto. Tudo muito simples, ainda não havia um passado, dias de construir o presente.
E nunca mais, quando nos lembramos, construímos o dia-a-dia. Esquecemos.
Algum dia será tudo memória. Histórias que apenas eu e ele sabemos, que por uma fração de segundos, algum dia tentaremos relembrar, e não saberemos se estamos apenas inventando. Retocando, você prefere dizer, porque aí tudo deslizará mais fácil, tudo perderá a sua tensão, e nada mais doerá como antes.
Monday, May 21, 2007
Vida de espera

Hachiko chegou em Tóquio em 1924, pouco depois de nascer, em Odate. Era um cão Akita, prestes a conhecer e a se perder na cidade grande. Seu dono era o respeitável senhor Hidesamuro Ueno. Um homem bem metódico, do jeito que os cães e sua natureza essencial, repetitiva e quase mecânica, tanto apreciam. Trabalhava como professor na Universidade de Tóquio, no departamento de agricultura. Homem que amava a natureza e os bichos. Tivesse vindo para o Brasil, provavelmente moraria no interior de São Paulo para cultivar tomates, alfaces e muita cenoura.
Mas o sr. Ueno nunca teve a necessidade de sair do Japão por questões econômicas. Nunca saiu do país. Pra falar a verdade, nem chegou a ver a Segunda Guerra. Ele era um homem que gostava de paz.
O cãozinho do sr. Ueno não se diferenciava dos seus semelhantes e devotava ao seu dono aquela fé adorável e algo tola e muito feliz que apenas os seres que amam demais e questionam de menos podem ter. Dia após dia via seu dono sair de casa, de manhã, para ir trabalhar. No fim do dia, Hachiko não segurava a ansiedade e ia de encontro ao seu dono, perto da estação de trem de Shibuya, onde o sr. Ueno desembarcava para, acompanhado de seu cão, retornar ao lar.
Dias felizes, de um cotidiano ordinário, comum, de um homem solitário, amante dos cães, das alfaces e dos tomates. Um professor honrado, que encontrou o equilíbrio naquele cotidiano tranqüilo de calmos dias sem guerras.
Mesmo longe das balas e do campo de batalha, o sr. Ueno não podia escapar da sina de todos os que um dia nasceram e do dia-a-dia obediente que segue à risca a ordem natural das coisas, da tradição genética, cultural e ancestral. Como todos os outros donos de cachorros, como todos os professores, como todos os amantes da natureza, o sr. Ueno sucumbiu à sua natureza de ser humano e morreu. Desgaste natural das suas funções biológicas.
Hachiko não entendeu direito o que estava acontecendo. Ele tinha pouco mais de um ano, mas, mesmo se tivesse mais idade, não entenderia. Mesmo que não fosse um cachorro, não aceitaria. Seria muito mais fácil viver naquele mundo particular, imune ao que estivesse acontecendo na realidade conhecida como a normal.
O sr. Ueno, que odiava quebras no seu cotidiano, não voltou para casa. Morreu lá mesmo na universidade. Deve ser algo bem estranho não voltar mais para casa.
A casa continuou lá, apenas mais solitária, e Hachiko ficou aquela tarde na estação de trem, esperando pelo sr. Ueno. Pela primeira vez em sua vida, o sr. Ueno dava um bolo, e não comparecia a um encontro.
Hachiko não entendeu nada. Em sua jovem mente, já estava programado, de forma indelével, aqueles encontros diários.
Arrancaram de Hachiko a sua paixão por regras cotidianas. E Hachiko não tinha mais para quem devotar toda a sua atenção e aquilo que se convencionou chamar de amor.
Hachiko continuou aparecendo todas as tardes. Quem sabe o sr. Ueno não apareceria, de repente, o maior atraso de sua vida, todo atrapalhado e pedindo desculpas. “Fui comprar cigarro, mas não tinha a minha marca”, ele diria, para reprovação de Hachiko, que não entenderia por que, àquela altura do campeonato, seu dono resolvera entrar para o mundo dos fumantes. Naquele tempo, havia apenas o mundo dos fumantes e dos não-fumantes.
Durante 11 anos Hachiko continuou indo à estação de trem. Muitos ficaram comovidos. Quem acreditava no coração, via em Hachiko um exemplo único de amor e fidelidade ao ser amado. Estas pessoas acreditam que o ser humano tem muito a aprender com os bichos. Outros, que acreditavam mais na mente, acham que os bichos apenas imitam o ser humano. Ou melhor, que humanos também são bichos, no final das contas, e que certos atos de ambos são muito parecidos, o que acaba dando mais ou menos na mesma. Para estes, Hachiko até amava seu dono, mas amava muito mais aquele monte de restos de comida que os que acreditavam no coração, emocionados, davam para o cão persistente. Hachiko morreu de barriga cheia e com um sorriso no rosto.
Seja o dono morto, seja a comida, Hachiko amava algo. Talvez já no fim da vida tivesse apenas uma vaga lembrança dos carinhos do sr. Ueno. Sua ida diária à estação de trem já tinha outros significados, outras motivações, e chegou um momento em que Hachiko ia para lá apenas porque tinha que ir.
Mas o sr. Ueno nunca teve a necessidade de sair do Japão por questões econômicas. Nunca saiu do país. Pra falar a verdade, nem chegou a ver a Segunda Guerra. Ele era um homem que gostava de paz.
O cãozinho do sr. Ueno não se diferenciava dos seus semelhantes e devotava ao seu dono aquela fé adorável e algo tola e muito feliz que apenas os seres que amam demais e questionam de menos podem ter. Dia após dia via seu dono sair de casa, de manhã, para ir trabalhar. No fim do dia, Hachiko não segurava a ansiedade e ia de encontro ao seu dono, perto da estação de trem de Shibuya, onde o sr. Ueno desembarcava para, acompanhado de seu cão, retornar ao lar.
Dias felizes, de um cotidiano ordinário, comum, de um homem solitário, amante dos cães, das alfaces e dos tomates. Um professor honrado, que encontrou o equilíbrio naquele cotidiano tranqüilo de calmos dias sem guerras.
Mesmo longe das balas e do campo de batalha, o sr. Ueno não podia escapar da sina de todos os que um dia nasceram e do dia-a-dia obediente que segue à risca a ordem natural das coisas, da tradição genética, cultural e ancestral. Como todos os outros donos de cachorros, como todos os professores, como todos os amantes da natureza, o sr. Ueno sucumbiu à sua natureza de ser humano e morreu. Desgaste natural das suas funções biológicas.
Hachiko não entendeu direito o que estava acontecendo. Ele tinha pouco mais de um ano, mas, mesmo se tivesse mais idade, não entenderia. Mesmo que não fosse um cachorro, não aceitaria. Seria muito mais fácil viver naquele mundo particular, imune ao que estivesse acontecendo na realidade conhecida como a normal.
O sr. Ueno, que odiava quebras no seu cotidiano, não voltou para casa. Morreu lá mesmo na universidade. Deve ser algo bem estranho não voltar mais para casa.
A casa continuou lá, apenas mais solitária, e Hachiko ficou aquela tarde na estação de trem, esperando pelo sr. Ueno. Pela primeira vez em sua vida, o sr. Ueno dava um bolo, e não comparecia a um encontro.
Hachiko não entendeu nada. Em sua jovem mente, já estava programado, de forma indelével, aqueles encontros diários.
Arrancaram de Hachiko a sua paixão por regras cotidianas. E Hachiko não tinha mais para quem devotar toda a sua atenção e aquilo que se convencionou chamar de amor.
Hachiko continuou aparecendo todas as tardes. Quem sabe o sr. Ueno não apareceria, de repente, o maior atraso de sua vida, todo atrapalhado e pedindo desculpas. “Fui comprar cigarro, mas não tinha a minha marca”, ele diria, para reprovação de Hachiko, que não entenderia por que, àquela altura do campeonato, seu dono resolvera entrar para o mundo dos fumantes. Naquele tempo, havia apenas o mundo dos fumantes e dos não-fumantes.
Durante 11 anos Hachiko continuou indo à estação de trem. Muitos ficaram comovidos. Quem acreditava no coração, via em Hachiko um exemplo único de amor e fidelidade ao ser amado. Estas pessoas acreditam que o ser humano tem muito a aprender com os bichos. Outros, que acreditavam mais na mente, acham que os bichos apenas imitam o ser humano. Ou melhor, que humanos também são bichos, no final das contas, e que certos atos de ambos são muito parecidos, o que acaba dando mais ou menos na mesma. Para estes, Hachiko até amava seu dono, mas amava muito mais aquele monte de restos de comida que os que acreditavam no coração, emocionados, davam para o cão persistente. Hachiko morreu de barriga cheia e com um sorriso no rosto.
Seja o dono morto, seja a comida, Hachiko amava algo. Talvez já no fim da vida tivesse apenas uma vaga lembrança dos carinhos do sr. Ueno. Sua ida diária à estação de trem já tinha outros significados, outras motivações, e chegou um momento em que Hachiko ia para lá apenas porque tinha que ir.
Como Adèle H., a filha de Victor Hugo, que, largada pelo amante, continuou durante anos obcecada pela sua paixão, até que a obsessão virou loucura, o rosto do amante, uma vaga lembrança, e o amor, uma entidade ainda mais abstrata, auto-sustentável, descolada de uma referência real. Quando, muitos anos depois, cruzou por acaso com o ex-amante na rua, não o reconheceu. Ela se lembrava de que amara alguém, algo, mas nem sabia mais quem era o foco de tanto amor. A fome de amor continuava, mas ela se tornara impossível de ser saciada.
Hachiko continua lá, na estação de trem. Os que o amavam ergueram uma estátua, à saída da estação de trem de Shibuya, em sua homenagem. Shibuya é um dos bairros mais decolados e modernos de Tóquio. É nele que tem aquele cruzamento absurdo que aparece em tudo que é filme e cartão-postal de Tóquio.
Hachiko continua lá, na estação de trem. Os que o amavam ergueram uma estátua, à saída da estação de trem de Shibuya, em sua homenagem. Shibuya é um dos bairros mais decolados e modernos de Tóquio. É nele que tem aquele cruzamento absurdo que aparece em tudo que é filme e cartão-postal de Tóquio.
Quando abre o sinal para os pedestres, surge uma multidão de todos os lados. É fácil se perder no meio da multidão, enquanto os olhos e os ouvidos ficam hipnotizados pelos luminosos e coloridos prédios gigantes. Neste cruzamento, a expressão “apenas mais um na multidão” ganha novos significados, porque é isso mesmo, literalmente. Você perde seu rosto.
Os jovens dominam Shibuya. Todos com os melhores cortes de cabelo e as roupas mais adoráveis, à procura de amor, querendo ser vistos por alguém, admirados por qualquer coisa que seja. Não ser apenas mais alguém com cabelos pretos e olhos castanhos.
E a estátua de Hachiko é o principal ponto de encontro dos jovens. Todos marcam seus encontros com os amigos, amantes, ficantes, inimigos, usando a estátua de Hachiko como ponto de referência.
Os jovens dominam Shibuya. Todos com os melhores cortes de cabelo e as roupas mais adoráveis, à procura de amor, querendo ser vistos por alguém, admirados por qualquer coisa que seja. Não ser apenas mais alguém com cabelos pretos e olhos castanhos.
E a estátua de Hachiko é o principal ponto de encontro dos jovens. Todos marcam seus encontros com os amigos, amantes, ficantes, inimigos, usando a estátua de Hachiko como ponto de referência.
Durante todo o dia, Hachiko continua sua vigília, enquanto dezenas de jovens ficam lá, solitários durante eternos minutos, enquanto aqueles por quem esperam não chegam. Ficam concentradíssimos em seus mais modernos celulares, enviando enlouquecidamente dezenas de caracteres em mensagens de textos.
Muitos voltarão para casa sozinhos, ou irão ao bar sozinhos, para conhecer outras pessoas.
O grande problema é que Hachiko nasceu numa era em que não existia telefone celular. Por isso ele espera e sabe que seu grande amor nunca iria lhe abandonar.
Wednesday, May 16, 2007
100 pernas

Tinoko já fazia parte da mobília de casa. Chegando tarde, cansado e esfomeado, achava perda de tempo preparar alguma coisa para comer. Achava desperdício de energia arrumar a cama. Vou acordar amanhã cedinho mesmo, ele decorava sempre os mesmos argumentos, está tão de noite, deixo pra comer amanhã. Já treinei meu estômago. Vou dormir tão pouco mesmo, pra que cama? Além disso não quero poluir meu travesseiro.
Ele já era parte da mobília de casa, e sua especialidade era se transformar no Homem-Sofá. Tinoko era um verdadeiro camaleão, adquirindo a capacidade de se confundir com o meio. A harmonia com o ambiente ao seu redor era tão grande que, às vezes, se esquecia de existir. Mas ele garante que, quando some durante o sono, e apenas o velho e desgastado sofá aparece solitário na sala, com aquele buraco e sua mortífera mola-osso exposta (e lembrar que tudo começou com uma inocente bituca de cigarro), ele está invisível apenas para os olhos de Tonika.
Tonika, já no final da história, queria apenas um lugar quente e macio para apoiar a cabeça. Servia um sofá com a mola-osso exposta, servia a coxa de Tinoko, a essa altura já um molde vivo da cabeça de Tonika. A cabeça de Tonika em sua coxa já fazia parte de seu ser, do mesmo modo como ele era um pedaço daquele sofá, daquela sala, daquela casa.
Mas Tonika vai partir e terá que achar um novo sofá. Tinoko não sabe bem o que fazer com a sua coxa, que carrega um molde único, agora inútil. Até amputaria a perna caso não precisasse dela para outras coisas.
Provavelmente Tinoko terá uma paisagem ainda maior pela frente. Poderá se transformar em sofá, em cama, em geladeira até. Terá então várias noites para não preparar o jantar, e não arrumar a cama, porque vai acordar cedo mesmo, e é perda de tempo se preocupar com detalhes tão breves, se a noite é curta assim.
Tinoko terá que fazer uma bela faxina. Terá que revirar seus armários, esvaziar suas estantes, colocar suas roupas para tomar um pouco de sol. Tinoko tem que ouvir de novo seus velhos CDs, reencontrar os livros que moldaram sua vida e fazer as primeiras sessões de cinema de sua coleção particular. Tudo para tentar se lembrar de quem era antes de se transformar no Homem-Camaleão e quem, afinal, largou aquela bendita bituca.
Ele já era parte da mobília de casa, e sua especialidade era se transformar no Homem-Sofá. Tinoko era um verdadeiro camaleão, adquirindo a capacidade de se confundir com o meio. A harmonia com o ambiente ao seu redor era tão grande que, às vezes, se esquecia de existir. Mas ele garante que, quando some durante o sono, e apenas o velho e desgastado sofá aparece solitário na sala, com aquele buraco e sua mortífera mola-osso exposta (e lembrar que tudo começou com uma inocente bituca de cigarro), ele está invisível apenas para os olhos de Tonika.
Tonika, já no final da história, queria apenas um lugar quente e macio para apoiar a cabeça. Servia um sofá com a mola-osso exposta, servia a coxa de Tinoko, a essa altura já um molde vivo da cabeça de Tonika. A cabeça de Tonika em sua coxa já fazia parte de seu ser, do mesmo modo como ele era um pedaço daquele sofá, daquela sala, daquela casa.
Mas Tonika vai partir e terá que achar um novo sofá. Tinoko não sabe bem o que fazer com a sua coxa, que carrega um molde único, agora inútil. Até amputaria a perna caso não precisasse dela para outras coisas.
Provavelmente Tinoko terá uma paisagem ainda maior pela frente. Poderá se transformar em sofá, em cama, em geladeira até. Terá então várias noites para não preparar o jantar, e não arrumar a cama, porque vai acordar cedo mesmo, e é perda de tempo se preocupar com detalhes tão breves, se a noite é curta assim.
Tinoko terá que fazer uma bela faxina. Terá que revirar seus armários, esvaziar suas estantes, colocar suas roupas para tomar um pouco de sol. Tinoko tem que ouvir de novo seus velhos CDs, reencontrar os livros que moldaram sua vida e fazer as primeiras sessões de cinema de sua coleção particular. Tudo para tentar se lembrar de quem era antes de se transformar no Homem-Camaleão e quem, afinal, largou aquela bendita bituca.
Sunday, May 13, 2007
Talvez amor

Esperei tanto por você e não me incomodei quando, enfim, você não apareceu. Apenas tentando deslizar suavemente, já que parecia tão fácil, eu apenas ia imitando e tentando fazer igual, mas você nunca mais. Passou tanto tempo, e já não me lembrava se eu era uma pessoa caída que às vezes se levantava ou se ficar de pé era meu estado natural, e a queda, apenas ocasional. Tudo estava agradável agora. Tudo já era conhecido. Alegria generosa. Tranquilo, sem dor. Tentar imitar, não é sempre assim? Os primeiros passos, a primeira escrita. Só tenho dúvidas em relação ao primeiro som. Quer dizer, o primeiro som aqui, do lado de fora, o berreiro. Quem é que estamos imitando então? É um instinto tão primeiro, tão primitivo, que já vem gravado dentro da gente? Programados? Quando enfim você chegou, eu não sabia se era você. Mas isso é o que menos importava. Quis abrir o berreiro, lembrar os velhos tempos. Não conseguia mais lembrar seu rosto, uma vaga lembrança do seu cheiro. Eu também tinha algo para te contar, mas não fazia mais a vaga noção do que eu queria tanto te contar. Talvez amor.
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